“Sua geladeira não vai salvar o planeta”, por Diogo Faria

Eficiência Energética é um tema que tem ganhado cada vez mais força no Brasil e no mundo, por diversas razões. Entre as razões políticas, está a redução da dependência por energia de outros países – principalmente dos produtores de petróleo. Entre as razões ambientais, está a transição para uma economia de baixo carbono, com a necessidade de reduzir a demanda por energia.

No Brasil, o programa mais conhecido que desenvolve ações por eficiência energética é o Procel, do Centro Brasileiro de Informação de Eficiência Energética, vinculado à Eletrobras. No entanto, seu foco se dá na identificação dos equipamentos eletroeletrônicos mais eficientes, ou seja, com menor consumo de energia elétrica. É aquele selo que tomamos o cuidado de checar quando compramos uma geladeira nova (e que, em alguns casos, fica colado nela para sempre).

Geralmente quando se fala em matriz energética no Brasil referencia-se apenas a matriz elétrica, onde as fontes não-renováveis representam apenas 26,9% da geração. No entanto, quando fazemos uma análise mais ampla (da matriz energética como um todo), verifica-se que 39,4% da energia produzida no Brasil é proveniente de petróleo e derivados, com mais 13,5% de gás natural – totalizando 52,9% de energia fóssil não-renovável. É importante ainda citar que a hidroeletricidade corresponde por apenas 11,5% da matriz energética brasileira.

Evidencia-se, desta forma, que o País precisa evoluir bastante na questão energética: fontes fósseis são finitas, e por isso alternativas precisam ser viabilizadas para garantir o abastecimento do futuro. Ainda, estrategicamente falando, o Brasil não é auto-suficiente em petróleo, já que importa mensalmente cerca de 9 milhões de barris de petróleo, a um preço 70% superior ao valor do petróleo que exporta (de menor qualidade).

Especificamente com relação à energia elétrica, o Brasil só não experimenta um racionamento porque desde 2015 a demanda caiu por conta da crise econômica. Mesmo assim, os reservatórios do país estavam até recentemente à beira do colapso. Todas estas questões comprovam a criticidade de se discutir o uso racional de energia no país de forma emergencial, para que o suprimento nas próximas décadas não seja ameaçado.

Os maiores consumidores de energia do país são os setores industrial (37%) e de transporte (35%). Abrindo por fonte, o setor industrial consome 22% de eletricidade e 15% de derivados de petróleo. Já o setor de transporte consome 82% de derivados de petróleo. Outros consumidores importantes de energia elétrica são os segmentos residencial (43% do total da energia consumida por ele é em forma de eletricidade) e comercial (90%).

No setor de transporte, 32% se refere ao veículo leve (movido a gasolina). Assim, como este setor consome 35% do total de energia do país, e como 32% deste consumo se refere a veículos leves, temos que 35% x 32% = 11,2% do atual consumo de energia do Brasil pode ser reduzido por meio de ações que reduzam a necessidade de deslocamentos por veículos leves a combustão. Ainda, o consumo de energia elétrica de residências e comércios representa, respectivamente, 11% x 43% = 4,7%, e 5% x 90% = 4,5%. Isso significa que, enquanto 100% da eletricidade de residências e comércios representam apenas 9,2% do total de energia do país, a gasolina do nosso carro consome 11,2%. É alarmante, e poucos falam sobre isso.

A justificativa para que o ser humano viva em grupo é obter ganhos de escala por esta concentração. Historicamente, estes ganhos podem ser pela defesa do grupo, pela facilidade em se obter produtos, pela possibilidade de comércio, etc. Todas estas questões giram em torno da facilidade de acesso pela proximidade entre os cidadãos, isto é, redução de deslocamento com consequente ganho de tempo.

Este conceito, apesar de óbvio e antigo, não é levado em consideração por muitos municípios brasileiros, cujo Plano Diretor não privilegia: (a) Empregos próximos às residências; e (b) Transporte público de qualidade, para dar dinâmica ao deslocamento. A forma de atingir estes dois objetivos é o adensamento planejado, agrupando em uma área pequena moradias e empregos, dando ainda a massa crítica necessária para viabilização de modais de transporte público de massa.

Este foco no transporte público é crucial para a redução do consumo de energia. Estudo realizado em 84 cidades no mundo mostram que a eficiência energética deste modal chega a ser de 90% quando comparado com o transporte individual. Este caso extremo ocorre nos EUA, onde um cidadão gasta em média 60.034 MJ por ano em um transporte individual, enquanto no coletivo este número é de apenas 809 MJ. Na América Latina (representada pelas cidades de Curitiba, São Paulo e Bogotá) o transporte individual “gasta” 7.283 MJ por ano por pessoa, enquanto o coletivo representa 2.158 MJ (ou seja, 70% de eficiência energética).

É preciso observar que as ações normalmente sugeridas para “descarbonizarmos” nosso planeta passam por veículos elétricos e fontes renováveis. No papel, parece ótimo – na prática, nem tanto. Se todos os veículos leves migrarem para um motor elétrico, eles precisarão ser abastecidos de alguma forma – e, se esta “alguma forma” forem fontes eólica e solar, com um fator de capacidade menor do que o atualmente existente no Brasil, é possível dizer que a potência instalada precisará ser multiplicada por dois ou por três para atender à nova demanda.

A Alemanha, tida como um sucesso absoluto por conta de sua experiência com microgeração distribuída, viu suas emissões de CO2 aumentarem nos últimos anos. Esse paradoxo ocorreu pois, para compensar a “curva do pato” da microgeração solar, o país teve que construir termelétricas a carvão (já que está descomissionando suas usinas nucleares que poderiam, sem emitir CO2, responder à perda de carga).

Se quisermos falar sério sobre eficiência energética, antes de pensarmos em reduzir o consumo de aparelhos domésticos temos que pensar em planejamento urbano e transporte público de qualidade. Este é o verdadeiro “vilão”, que nos próximos anos representará um desafio ainda maior por conta dos veículos elétricos e da matriz baseada em solar e eólica. Hoje no Brasil praticamente não há discussão sobre planejamento urbano, muito menos com a ótica de eficiência energética. MME e Ministério das Cidades precisam formar uma força-tarefa para discutir esta questão e acharem alternativas conjuntas, se quisermos levar a sério os compromissos assumidos de redução de combustíveis fósseis e emissão de gases causadores do efeito estufa.


O AutordiogoMestrando em Administração Pública pela Harvard Kennedy School
Lemann Fellow
Integrante da equipe do projeto Infraestrutura para Crescer, em que atua como orientador em regulação e modelagem econômico-financeira.

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