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“Não comemos PIB!”, gritam. Não é bem assim! A criação de riqueza deve ser premiada, e não punida!

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Foto: Ante Gudelj/Unsplash

Vez por outra, a frase “não comemos PIB” aparece nas redes e nos jornais.

Apareceu quando o PIB começou a cair no governo Dilma, e reapareceu agora no governo Bolsonaro, quando o PIB subiu acima do esperado.

A frase é interessante e merece atenção. 

De fato, literalmente não comemos PIB, também não vestimos PIB, não moramos no PIB e não saímos para dançar no PIB. PIB é uma construção teórica usada por economistas para tentar mensurar o quanto é produzido em uma região.

No PIB estão computadores, relógios, trigo, cortes de cabelos, massas e maçãs. “Quem é tanta coisa acaba por não ser nada”, pode dizer algum observador. Entretanto, esse observador estaria sendo injusto. 

Como outras medidas do tipo, o PIB simultaneamente carece e abunda de significados. A frase “não comemos PIB” é literalmente correta e bastante útil para apontar que existem coisas que o PIB não capta bem. Porém, a frase se torna enganosa quando usada para tirar relevância de uma queda ou de um aumento do PIB.

A criação de riqueza é o que interessa

Mensuramos o nível de pobreza de um indivíduo em relação a outro pela quantidade de bens e serviços disponíveis a ele. Uma pessoa será mais pobre que a outra quando possui menos bens e serviços à sua disposição para satisfazer suas necessidades.

Em termos de países, a situação é similar. Quanto mais bens e serviços disponíveis a seus habitantes, melhor será sua condição de vida e menor será o nível de pobreza. 

O padrão de vida de um país é determinado pela abundância de bens e serviços. Quanto maior a quantidade de bens e serviços ofertados, e quanto maior a diversidade dessa oferta, maior será o padrão de vida da população. Quanto maior a oferta de alimentos, quanto maior a variedade de restaurantes e de supermercados, de serviços de saúde e de educação, de bens como vestuário, imóveis, eletrodomésticos, materiais de construção, eletroeletrônicos e livros, de pontos comerciais, de shoppings, de cinemas etc., maior tenderá a ser a qualidade de vida da população. 

Logo no primeiro capítulo do livro Introduction to Modern Economic Growth, Daron Acemoglu, economista merecidamente festejado pelo livro Por que as nações fracassam?, trata de relação entre PIB per capita, que nada mais é do que o PIB dividido pela população, e os níveis de bem-estar de um país.

Vale ressaltar que, embora possua falhas, o PIB per capita ainda é o melhor indicador para retratar a verdadeira riqueza de um país. Essencialmente, o PIB per capita representa a divisão entre o total de bens e serviços produzidos por uma economia e o total de sua população. O indicador busca apresentar uma mensuração média da riqueza dos indivíduos de cada país.

Consequentemente, quanto maior o PIB per capita, maior a riqueza média de cada indivíduo, e, por definição, menor a sua pobreza.

Uma maneira óbvia de garantir um alto PIB per capita é facilitar  o empreendedorismo — a produção de bens e serviços — de um país. Um país será tanto mais rico quanto mais sua economia produzir em termos per capita. 

Sim, comemos PIB – e também bebemos PIB e o utilizamos de esgoto

Para ilustrar este ponto, Acemoglu apresenta dois gráficos reproduzidos abaixo. 

O primeiro mostra a correlação (que não é causalidade!) entre o logaritmo do PIB per capita e o logaritmo do consumo per capita. Fica clara a relação positiva entre as duas variáveis, ou seja, não comemos PIB, mas, onde o PIB por pessoa é maior, o consumo por pessoa também é maior.

Gráfico 1: no eixo horizontal, o PIB per capita (em logaritmo); no eixo vertical, o consumo per capita (em logaritmo)

O segundo gráfico mostra a correlação entre PIB per capita e expectativa de vida ao nascer. PIB não é comida nem remédio, mas, onde o PIB per capita é maior, as pessoas tendem a viver mais.

Gráfico 2: no eixo horizontal, o PIB per capita (em logaritmo); no eixo vertical, a expectativa de vida

“Isso é óbvio”, alguém pode dizer. Correto, mas também deveria ser óbvio que crescimento do PIB é uma boa notícia e queda do PIB é uma notícia ruim.

Estimulado pelo trabalho de Acemoglu, tomei a liberdade de mostrar outras correlações entre o PIB per capita e algumas variáveis que alguém pode considerar relevantes. 

A figura abaixo mostra a correlação entre PIB per capita e o percentual da população com acesso a saneamento básico.

Gráfico 3: no eixo horizontal, o PIB per capita (em logaritmo); no eixo vertical, a porcentagem da população atendida por saneamento básico

Além de consumir mais e viver mais, quem vive em locais com PIB per capita maior tem menos problemas de acesso à água tratada. 

Por causa do PIB? Não dá para dizer isso, lembrando que correlação não é causalidade. Mas, se é difícil, talvez impossível, estabelecer empiricamente uma relação de causalidade, não é tão difícil teorizar sobre tal relação – afinal, mesmo em um arranjo em que o saneamento é 100% estatal, mais riqueza criada permite mais tributação e uso de recursos em obras de saneamento.

Mas deixo isso para outra ocasião.

Consumir mais é bom, viver mais é bom, ter acesso a esgoto e água tratada é bom… mas o que vale tudo isso sem “tomar uma”? 

Pensando nisso, fui olhar a correlação entre PIB per capita e consumo de álcool. Deu positiva.

Gráfico 4: no eixo horizontal, o PIB per capita (em logaritmo); no eixo vertical, o consumo de álcool per capita (em logaritmo)

Pois é. Em última instância, se nada do que foi dito até aqui foi o suficiente para convencer da importância do PIB, talvez saber que onde o PIB per capita é maior se bebe mais irá mudar a opinião de alguns.

Meu conterrâneo Belchior cantou que nada é maravilhoso. Receio que ele esteja certo, mas definitivamente não é em conceitos econômicos que vamos encontrar algo para contradizer o poeta cearense. O PIB também está correlacionado com coisas indesejáveis, como, por exemplo, a poluição. Países com maior PIB per capita emitem mais CO2.

Gráfico 5: no eixo horizontal, o PIB per capita (em logaritmo); no eixo vertical, emissão de CO2 per capita (em logaritmo)

Muita gente acredita que isso é motivo para não comemorar aumento de PIB. Por outro lado, poucas pessoas parecem dispostas a migrar para países que emitem pouco CO2. Não sou especialista no assunto, mas creio que sacrificar PIB para preservar meio ambiente é uma estratégia complicada e limitada. 

(O que, aliás, comprova a imensa hipocrisia de ambientalistas de países ricos que exigem que os países mais pobres sacrifiquem seu economia).

Resta apostar que a chegada de novas tecnologias resolvam o problema e permitam a redução da correlação entre PIB e emissão per capita de CO2.

A última figura retorna à frase que motivou o artigo: não comemos PIB, mas, onde o PIB per capita é maior, o percentual da população subnutrida é menor.

Gráfico 6: no eixo horizontal, o PIB per capita (em logaritmo); no eixo vertical, a porcentagem da população subnutrida

Para concluir

Além da teoria, a própria empiria comprova a crucial importância do crescimento econômico para que uma população prospere. 

Se a economia cresce mais, isso significa que mais bens e serviços estão sendo produzidos. Consequentemente, maior será a qualidade de vida da população. Maior crescimento econômico também significa aumento da renda da população, o que por sua vez permite mais importações de produtos de alta qualidade, reforçando assim todo o ciclo virtuoso.

A solução para a pobreza, portanto, está em facilitar ao máximo o crescimento econômico. E, para que isso ocorra, o óbvio tem de ser feito: desburocratizar, desregulamentar, reduzir impostos (o que implica reduzir gastos do governo), facilitar o empreendedorismo e ter uma moeda forte.

O objetivo aqui não é contestar a frase de que “não comemos PIB”, mas contextualizar a importância do crescimento do PIB e como um maior PIB per capita está correlacionado com algumas características desejáveis de uma sociedade. 

Nunca é demais lembrar que, como também está registrado no livro de crescimento do Acemoglu, o processo de aumento do PIB per capita, embora geralmente bom para o bem-estar, cria perdedores e ganhadores – daí, talvez, as resistências.


Roberto Ellery é professor de economia da Universidade de Brasília (UnB), articulista do Instituto Liberal, e participa de debates sobre as formas de alterar o atual quadro de baixa taxa de investimento agregado no país e os efeitos de longo prazo das políticas de investimento.


Fonte: Mises Brasil

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