Há uma confusão crescente entre empatia e virtude. No debate público, sentir pelo outro passou a ser tratado como valor absoluto, imune a critérios, limites ou hierarquias morais. O problema começa quando a empatia deixa de ser uma disposição ordenada da alma e se converte em critério único de decisão política, cultural e institucional. É nesse ponto que surgem conceitos incômodos, porém reveladores, como empatia suicida e etnomasoquismo.
O termo empatia suicida, associado ao trabalho do psicólogo evolucionista Gad Saad, descreve uma forma de compaixão que se volta contra quem a pratica. Não se trata de negar a empatia, mas de observar o que ocorre quando ela se torna indiferenciada, indiscriminada e incapaz de reconhecer prioridades morais. Saad argumenta que a empatia, enquanto adaptação evolutiva, surgiu ligada à cooperação entre grupos próximos, família, comunidade, polis. Quando deslocada desse contexto e aplicada sem critério, ela passa a produzir decisões que fragilizam instituições, desorganizam políticas públicas e minam a confiança social.
A crítica central não é emocional, é estrutural. Políticas orientadas apenas por comoção imediata tendem a ignorar consequências de longo prazo. A prudência, virtude clássica descrita por Aristóteles como a capacidade de julgar corretamente os meios em vista de fins bons, é substituída por impulsos morais reativos. O resultado é um ambiente em que a intenção subjetiva vale mais do que o efeito real das ações.
Já o conceito de etnomasoquismo, formulado por Patrick Buchanan, aponta para um fenômeno distinto, porém convergente. Trata-se da disposição de elites culturais em depreciar sistematicamente a própria herança histórica, moral e simbólica, muitas vezes apresentando esse gesto como sinal de superioridade ética. Nesse movimento, a autocrítica deixa de ser instrumento de correção e se transforma em negação da própria legitimidade cultural.
Aqui o problema não é reconhecer erros históricos, isso é parte da responsabilidade moral de qualquer civilização madura. O problema surge quando a crítica perde o vínculo com a justiça e se converte em desprezo. Uma cultura que aprende apenas a acusar a si mesma perde a capacidade de transmitir referências, limites e responsabilidades às gerações seguintes. Sem continuidade simbólica, não há coesão, apenas fragmentação.
Esses dois conceitos provocam reações intensas porque tocam em um ponto sensível da modernidade tardia: a dificuldade de sustentar critérios objetivos de bem, verdade e justiça. Quando tudo se reduz a sentimentos e narrativas, o julgamento moral se torna volátil. A empatia, separada da razão prática, deixa de ser virtude. A crítica cultural, separada do amor à verdade, deixa de ser correção e se torna corrosão.
A tradição clássica oferece um antídoto conceitual importante. Para Aristóteles, a virtude não está no excesso nem na falta, mas no meio ordenado pela razão. A compaixão é boa quando subordinada à justiça. A abertura ao outro é saudável quando não exige a negação do próprio. Santo Agostinho já alertava que uma caridade sem ordem se transforma em desordem do amor. Amar tudo da mesma forma é, no fundo, não amar corretamente coisa alguma.
Isso não significa defender fechamento cultural, indiferença social ou dureza moral. Significa reconhecer que sociedades só permanecem humanas quando conseguem equilibrar misericórdia e responsabilidade, acolhimento e limite, crítica e pertencimento. Empatia sem prudência gera decisões cegas. Orgulho sem humildade gera tirania. O desafio está em sustentar o eixo.
No fundo, o debate sobre empatia suicida e etnomasoquismo revela algo mais profundo: uma crise de discernimento moral. Não faltam boas intenções, falta critério. Não falta sensibilidade, falta estrutura ética. Recuperar as virtudes clássicas não é um gesto nostálgico, é uma necessidade prática para sociedades que desejam permanecer livres, coesas e moralmente responsáveis.
A empatia, quando enraizada na verdade e ordenada pela razão, continua sendo uma força civilizadora. Fora disso, ela se torna apenas mais um instrumento de autossabotagem travestido de virtude.