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Querem te convencer de que o certo é errado

Como as “tribos morais” moldam os conflitos atuais, distorcem a ética pública e ameaçam a permanência das virtudes.

Em seu livro Moral Tribes, o psicólogo Joshua Greene propõe uma das teorias mais incisivas sobre os dilemas éticos do nosso tempo: não vivemos em uma luta entre o bem e o mal, mas em uma guerra entre tribos morais que acreditam estar fazendo o bem. Segundo Greene, nossa moralidade evoluiu para funcionar dentro de grupos, não entre eles. Assim, quando diferentes tribos se encontram, sejam elas políticas, religiosas ou ideológicas, o conflito não é apenas de opiniões, mas de mundos morais inteiros.

Em outras palavras: o que é virtude para um, é heresia para outro.

Greene sugere que nosso cérebro funciona com dois sistemas: o automático (intuitivo, tribal) e o manual (racional, deliberativo). Mas, diante tanta polarização, o sistema automático domina. E o resultado disso é perigoso: deixamos de agir com prudência e passamos a reagir instintivamente.

A Trincheira do IoP

O Instituto O Pacificador, como centro de pensamento enraizado na tradição filosófica ocidental, de Aristóteles a Santo Agostinho, não pertence a nenhuma “tribo” no sentido contemporâneo. Somos fiéis à busca da verdade, à defesa da Vida, da Paz, da Liberdade e da Prosperidade, mesmo quando isso contraria a maré das opiniões públicas dominantes.

Em um tempo em que a moral é relativa, reafirmamos que existem fundamentos universais e que sociedades prósperas se desenvolveram sob tais preceitos. E, por isso mesmo, nossas propostas soam desconfortáveis para aqueles que veem a moral como um instrumento de poder, e não como uma virtude objetiva.

Hoje, defender a verdadeira justiça se tornou um rótulo de pensamento retrógrado. Defender a vida é interpretado como autoritarismo. Falar em liberdade econômica soa como egoísmo. Mas esse ruído não nasce da razão, e sim do conflito tribal.

Janela de Overton: Como se muda o impensável

A teoria da janela de Overton explica como ideias antes impensáveis se tornam políticas públicas e verdades quase absolutas. É uma escala que vai do “inaceitável” ao “aceitável”, até o “popular” e, finalmente, o “legalizado”. Isso não ocorre por acaso. É estratégico.

Políticos, influenciadores e estrategistas ideológicos utilizam a janela para deslocar marcos da moralidade, até então balizadores da nossa sociedade. O que ontem era absurdo, hoje é celebrado, a ponto de se tornar lei, em alguns casos. O que hoje é prudente, amanhã será taxado como intolerável. E quem discordar é massacrado por uma turba sedenta por cancelamento e ódio.

Exemplos recentes são visíveis: desde a erotização precoce de crianças em nome da “liberdade” até a extinção de leis penais sob o pretexto de justiça social. Em ambos os casos, valores fundamentais são rebaixados em nome de causas tribais. Quem grita mais alto consegue movimentar a Janela de Overton.

O inimigo não é só externo

Enquanto muitos combatem as “outras tribos”, outros esquecem de olhar para dentro. O problema das tribos morais não é só o outro, mas é o que elas fazem conosco.

É como se alguém, da noite para o dia dissesse: “a partir de hoje, o verde é o novo amarelo”. Quem discordar será duramente criticado e, em alguns casos, punido.

Ao viver em bolhas morais, cultivamos vícios: arrogância, intolerância, preguiça intelectual. O apego à nossa identidade tribal pode destruir a capacidade de diálogo, mas também a coragem de reconhecer que estamos equivocados, provocando uma miopia que impede que reformemos a nós mesmos.

E, quando tudo desmorona, ao invés de nos responsabilizarmos por algo que deu errado, culpamos uma outra tribo por nossas atitudes não terem surtido o efeito desejado. Isso é puramente uma covardia. E, pior, será validada por nossa tribo, retirando a responsabilidade pelos nossos atos.

O verdadeiro protagonista ético não é aquele que vence uma disputa moral. É o que permanece virtuoso, reconhecendo os seus erros, mesmo quando sua tribo o abandona.

Reafirmar Virtudes é fundamental

A missão do IoP é construir pontes que resistam ao tempo, amparadas por virtudes sólidas: a Prudência, a Coragem, a Temperança e a Justiça.

Essas virtudes, ensinadas por Aristóteles, Agostinho e Aquino, não mudam com tempo, com políticos de ocasião ou com as hashtags do momento. Elas nos forjam, especialmente em tempos difíceis, quando é mais fácil ceder à manada do que manter-se firme no conceito do que é certo.

E esses conceitos estão todos nos clássicos. Basta retornar às obras histórias e compreender, à luz do nosso tempo, como os ensinamentos podem nos guiar para o bem.

É essencial educar a consciência, formando jovens que não apenas “pensem diferente”, mas que saibam por que pensam assim.

E, a nós adultos, cabe ser um farol para os jovens, iluminando as suas jornadas, mesmo que o mundo, cada vez mais, opte pelo caminho das sombras.

Para saber mais

  • – Livro Moral Tribes, Joshua Greene.
    – Ética a Nicômaco, Aristóteles.
  • – Depois da Virtude, Alasdair MacIntyre.
  • – Artigos do IoP: www.iop.org.br/artigos

Jorge Quintão – IoP

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