São Tomás de Aquino e o conhecimento para o bem

Como a síntese de São Tomás de Aquino e o nexialismo mostram que a unidade do conhecimento é o caminho para viver a verdade e realizar o bem.

Há algo profundamente perturbador na forma como aprendemos a pensar. Desde cedo, somos treinados ou seria mais honesto dizer: adestrados? — a dividir a realidade em gavetas mentais cada vez mais estreitas. O médico não fala com o poeta. O físico desconfia do teólogo. O economista ignora o filósofo. E todos nós, especialistas ou não, carregamos essa fragmentação para dentro de nós mesmos, como se fôssemos casas divididas onde os cômodos não se comunicam. Perdemos, nesse processo aparentemente inevitável de especialização, algo que nossos antepassados possuíam com naturalidade: a percepção da unidade subjacente a todas as coisas.

É precisamente nessa fratura civilizacional que dois conceitos aparentemente distantes no tempo se encontram com uma força reveladora: o nexialismo, advindo da ficção científica que ousou imaginar uma inteligência capaz de conectar o desconectado e a prática filosófico-teológica de São Tomás de Aquino, esse dominicano medieval que no século XIII realizou uma das sínteses mais ambiciosas e bem-sucedidas da história do pensamento ocidental.

Ambos compartilham uma intuição que nossa época, obcecada pela fragmentação, quase esqueceu: a verdade não está dividida em territórios hostis que se excluem mutuamente. Ela é una, embora se manifeste em múltiplas dimensões. E quando diferentes campos do conhecimento se encontram genuinamente, mas não em conferências acadêmicas burocráticas, mas no laboratório vivo da inteligência integradora, eles não se anulam por contradição, mas se potencializam em direção ao bem. Essa convergência não é acidental. É estrutural.

A ciência da conexão

Devo confessar que quando me deparei pela primeira vez com o conceito de nexialismo, um pensamento híbrido nascido da imaginação fértil do escritor de ficção científica A. E. van Vogt, me deu aquela sensação ambígua que só as grandes ideias provocam: uma mistura de fascinação e ceticismo. Como alguém que viveu transitando entre áreas de conhecimento, desconfiei das categorizações excessivamente ambiciosas. Mas diante do nexialismo, percebi logo, não era apenas mais um desses conceitos pretensiosos que a modernidade fabrica aos montes. Era algo distinto, incômodo mesmo, porque tocava numa ferida aberta da civilização moderna: a nossa incapacidade crescente de enxergar a verdade do todo. O conceito, o nome, explicou tudo o que eu não consegui sintetizar até então.

O nexialista, esse personagem que van Vogt imaginou não é simplesmente um erudito enciclopédico, desses tipos sufocantes que acumulam informação. Não. O nexialista é outra coisa, mais sutil: é alguém que desenvolveu a capacidade de perceber as conexões improváveis entre campos do conhecimento aparentemente irreconciliáveis. Enquanto o especialista cava cada vez mais fundo em seu buraco particular e, nossa época produziu especialistas de uma estreiteza assombrosa, o nexialista move-se horizontalmente, atravessando fronteiras disciplinares com a desenvoltura de um contrabandista. Para uma sociedade quase toda segmentada isso parece um crime.

E aqui reside algo fundamental que aproxima o nexialista de Tomás de Aquino: ambos são, antes de tudo, indivíduos livres. Livres daquilo que escraviza a maioria dos intelectuais: o apego neurótico a arranjos prévios de conhecimento, a sistemas fechados que prometem segurança epistêmica mas entregam apenas prisões conceituais. Tomás não hesitou em incorporar Aristóteles, um pagão, à teologia cristã, escandalizando os ortodoxos de sua época que consideravam tal movimento uma heresia. Por quê? Porque São Tomás enxergava além dos rótulos e das tribos intelectuais. Ele buscava a verdade onde quer que ela se manifestasse, e tinha a coragem de integrá-la mesmo quando isso violava os arranjos confortáveis de seu tempo.

No Instituto O Pacificador, o nexialismo deixa de ser abstração e ganha a realidade: manifesta-se na integração das dimensões que constituem o humano e a sociedade, sempre orientado pelos valores de Vida, Paz, Liberdade e Prosperidade e integrados como a linha da vida. Negligenciar qualquer uma dessas esferas é condenar-se à incompletude; é aceitar viver como fragmento quando se poderia aspirar à totalidade.

O homem fragmentado é o homem diminuído. E o que o IoP defende é exatamente o contrário: que o protagonismo humano só se realiza plenamente quando orientado pelo bem, cultivando as virtudes e compreendendo a realidade como uma unidade que pede síntese, não dispersão.

Ser protagonista do bem não é ser individualista. É reconhecer a responsabilidade única de integrar vigor, carisma, conhecimento e sabedoria, orientando-os pelos princípios perenes que sustentam a civilização, ou pelo menos deveria. O nexialismo nos recorda a necessidade de conectar; São Tomás de Aquino mostra que essa conexão precisa de direção: o Bem supremo.

Com tanto ruído no conhecimento, a capacidade de síntese não é luxo intelectual, mas uma exigência vital. Só quem integra se torna força transformadora. Mas São Tomás nos lembra que conhecer o bem não basta; é preciso escolhê-lo, praticá-lo e encarná-lo.

Porque o bem não se realiza em tratados ou teorias, mas em vidas que ousam ser inteiras. O mundo não muda quando acumulamos verdades, mas quando alguém decide viver por elas. A síntese não é apenas uma tarefa do pensamento; é uma tarefa da alma.

E talvez a pergunta que fica, diante de São Tomás de Aquino e do chamado à unidade, seja esta: teremos nós a coragem de sermos indivíduos inteiros, mesmo em uma época que insiste em nos dividir?

Para saber mais

  • São Tomás de Aquino. Suma Teológica. Tradução de Alexandre Corrêa. São Paulo: Loyola, diversas edições.
  • Aristóteles. Ética a Nicômaco. Brasília: Editora UnB, 1992.
  • C.S. Lewis. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
  • G.K. Chesterton. São Tomás de Aquino: O Boi Mudo de Sicília. São Paulo: Ecclesiae, 2014.
  • Leibniz, G.W. Discurso de Metafísica. São Paulo: Abril Cultural, 1974.
  • Van Vogt, A. E. The Voyage of the Space Beagle. New York: Simon & Schuster, 1950 – obra onde o conceito de “nexialismo” foi originalmente apresentado.

Leitura no site do IoP:


Organização: Jorge Quintão – IoP

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