Sócrates perderia credibilidade hoje por dizer “não sei”

Tem muito tempo que eu não ligo a televisão. Nem sei bem por que resolvi assistir, mas zapeando entre canais descobri que o telejornal da maior emissora do país parou de contar o que acontece. Estranhamente, em quase todos os quadros, há um especialista dizendo o que acha de um fato antes mesmo dele terminar de acontecer.

Nas redes sociais é a mesma coisa, só que de forma mais rápida, sem tempo para que possamos respirar. Um influenciador esvazia a opinião dele sobre algum assunto antes que ele sequer termine de acontecer, e são tantos ao mesmo tempo que já não dá para saber o que vem primeiro, a verdade ou a velocidade. Uma hashtag resume o acontecimento inteiro, como se fosse possível.

Estamos cercados de respostas prontas vindas de todo lado. Por causa disso quase ninguém mais precisa pensar sozinho. A qualquer hora do dia tem alguém explicando economia, medicina, guerra, religião, um filme tirado de um clássico, inteligência artificial, política, sempre com a convicção de quem nunca duvidou de nada. A dúvida virou sinal de fraqueza. A pressa engoliu a prudência. Admitir que não sabe uma coisa parece hoje um defeito de caráter, incompatível com a imagem que cada um vai construindo a sua autoridade digital

Sócrates fez da própria ignorância uma espécie de sabedoria. A frase dele, “só sei que nada sei”, hoje soaria como a confissão de um crime. Não porque é impossível conhecer as coisas, mas porque o aprendizado de verdade só começa quando um homem larga a fantasia de já carregar todas as respostas. Agostinho escreveu bastante sobre a humildade que a realidade cobra de quem tenta entendê-la. São Tomás de Aquino nos ensinou que a inteligência existe para se curvar diante da verdade, não para fabricar uma nova, sob medida, confortável, aceita por todo mundo ao mesmo tempo.

Existe uma enorme diferença entre saber muita coisa e estar disposto a conhecer. Uma coisa raramente puxa a outra.

Em certas conversas de hoje dizer que a grama é verde já é motivo de revolta.

Foi nos dias mais escuros da Segunda Guerra que essa diferença se tornou uma sentença. Em abril de 1945, poucas semanas antes de a Alemanha se render, fuzilaram Dietrich Bonhoeffer. Pastor luterano, teólogo, ele tinha passado os últimos anos preso por participar de uma conspiração contra Hitler. Lá de dentro da prisão escreveu uma reflexão que ainda incomoda quem a lê, oitenta anos depois.

Bonhoeffer dizia que o maior perigo para uma sociedade não é a maldade. É a estupidez.

Parece absurdo, mas estamos acostumados a enxergar o mal como algo com um rosto próprio. Um criminoso. Um tirano vestido de político, ou um corrupto de gravata cara. Gostamos de acreditar que basta apontar o dedo para os maus e a história para de se repetir.

Bonhoeffer mostrou que o mal desperta reação, resistência, indignação de gente boa. A estupidez não desperta nada disso. Ela se disfarça de virtude, de compromisso, de fidelidade, de promessas inalcançáveis, de consciência política, de dever moral, e por isso passa despercebida bem debaixo do nosso nariz. O pior é que isso pode morar dentro de gente muito inteligente, porque não nasce de falta de miolo, mas de uma renúncia: a de julgar por conta própria.

Quando alguém entrega a própria consciência a um grupo, a uma ideologia, a uma autoridade, continua raciocinando, continua juntando informação, continua fabricando argumento atrás de argumento. Mas desenvolve uma certeza e para de se perguntar se aquilo tudo corresponde à realidade. E essa, para mim, é a forma mais eficiente de servidão que existe.

Anos depois de Bonhoeffer outra pensadora chegou perto da mesma conclusão por um caminho totalmente diferente. Hannah Arendt foi acompanhar o julgamento de Adolf Eichmann, um dos homens que organizou a logística do extermínio de milhões de judeus, esperando encontrar um monstro. Encontrou um burocrata. Do tipo que diz apenas: eu estava cumprindo ordens.

Eichmann não possuía nenhum traço de sadismo, nem genialidade que saltasse aos olhos, ou sinais de perversidade teatral. Parecia um funcionário qualquer, arrumadinho, com o cabelo bem penteado, educado, que seguia ordem de superiores, voltava para casa à noite, jantava, lia o jornal, dormia, e no dia seguinte fazia tudo de novo. Dali nasceu a expressão banalidade do mal.

Arendt não nos mostrou que o mal era pequeno. Pelo contrário. Revelou que o jeito de praticá-lo podia ser banal, sem ódio, sem paixão, sem nenhuma reflexão sobre o que aquilo significava. Só obediência pura e vazia. A tragédia não morava apenas nos campos de concentração, mas na normalidade fria de quem já tinha desistido de pensar sobre o próprio ato.

Bonhoeffer escreveu de dentro de uma cela. Arendt observou de dentro de um tribunal. Partiram de lugares diferentes e chegaram perto do mesmo ponto: uma sociedade começa a ficar perigosa quando o pensamento deixa de ser tarefa pessoal e passa a ser terceirizado para outra cabeça, para o coletivismo.

Os regimes autoritários entendem isso melhor do que ninguém. Não precisam convencer a população inteira de que estão certos. Basta convencer as pessoas de que pensar por conta própria é desnecessário, porque alguém já vai pensar por elas. Basta reunir uns especialistas para os assuntos incômodos, inventar um inimigo qualquer e repetir a mesma frase todo santo dia, em canais diferentes, até ela parecer óbvia demais para ser questionada.

É aí que a inteligência para de servir à verdade e passa a servir ao poder.

Talvez por isso tantos crimes grandes da história tenham contado com intelectuais, médicos, professores, engenheiros, juízes, jornalistas, administradores, gente de currículo consistente. A origem de boa parte do mal nasce da frieza de que vem antes da tragédia, porque escolaridade nunca garantiu discernimento, e inteligência sozinha também não.

Nunca tivemos tanto conhecimento ao nosso alcance e, ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil parar de pensar. Os algoritmos escolhem o que vamos ver e ouvir, organizam nossa preferência, confirmam o que já acreditávamos antes mesmo de compreender o contexto geral, sugerem um influenciador que entrega a interpretação pronta, embrulhada nas tags e palavras certas para viajar rápido pela rede. Depois vem a inteligência artificial, que resume livro, reforça o argumento a favor do que já pensamos, escreve texto, responde pergunta em segundos, inclusive esta que você está lendo agora, revisada com a ajuda de uma delas, o que só torna o assunto mais incômodo para mim.

Nenhuma dessas coisas é o problema em si. São ferramentas, só isso. O problema surge quando elas param de ampliar nosso julgamento e passam a substituí-lo por respostas prontas de prateleira.

Consultar não é o mesmo que delegar. Aprender não é repetir de cor. Conhecimento não é discernimento. Usar a ferramenta como ferramenta é bom, poupa tempo, facilita a vida em tarefas repetitivas. O ruim é deixar que ela pense no nosso lugar. É essa linha tênue que separa quem continua livre de quem repete argumentos.

Por isso o debate público ficou tão previsível, se é que ele existe. Cada grupo tem sua palavra de ordem, seu herói, seu vilão, sua certeza que não se discute mais. Pouca gente investiga o fato antes de tomar uma posição. As ideias já não se enfrentam de verdade, porque para alguns até discordar virou crime. Escolhe-se o lado primeiro. O argumento vem depois, só para justificar a escolha que já tinha sido feita.

A verdade deixou de orientar o pertencimento. Agora é o pertencimento que decide o que vai servir como verdade.

Quanto mais alguém acredita já possuir todas as respostas, menos disposição costuma ter para examinar a realidade na sua frente. A soberba intelectual raramente se apresenta como arrogância. Costuma ser mais elegante, com um ar de superioridade e sempre começa no mesmo lugar: quando alguém decide que já não precisa submeter as próprias convicções ao exame da realidade.

Por isso eu ainda seguro de perto o aviso que Bonhoeffer e Hannah Arendt deixaram, cada um a seu modo, para o nosso tempo. Nenhum povo está definitivamente protegido contra o autoritarismo disfarçado de bem-estar social. Nenhuma sociedade está vacinada contra líderes delirantes e carismáticos ao mesmo tempo. Nenhuma geração está livre da tentação de entregar sua consciência para aqueles que prometem respostas simples a problemas complexos.

Todo regime autoritário nasce concentrando poder, mas só sobrevive quando a responsabilidade individual abdica e deixa o caminho livre para as liberdades serem tomadas a ferro e fogo. É nesse ponto que a liberdade deixa de ser só um direito no papel. Vira uma virtude, uma disposição permanente para pensar, investigar, corrigir os próprios erros, resistir à sedução das certezas fáceis, com segundas intenções.

Talvez por isso a frase mais verdadeira deste século continue sendo também uma das menos pronunciadas: “eu não sei.”

Porque ela não encerra a conversa. Pelo contrário, ela a torna possível.


Jorge Quintão – IoP

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