Tem um bom tempo que eu não ligo a TV. No fim de semana fiquei zapeando entre canais e parei no telejornal da maior emissora do país. O formato continua o mesmo, com um âncora chamando as matérias uma a uma, mas notei uma diferença. Em quase todo quadro aparece um especialista dizendo o que acha do fato que acabou de ser noticiado. Nas afiliadas, rodas de debate discutem qualquer assunto. Ou seja, o telejornal parou de relatar e virou um gerador de opiniões. Isso me lembrou de duas pessoas que escreveram sobre o assunto muito antes da internet existir. Dietrich Bonhoeffer chamou de estupidez. Hannah Arendt chamou de banalidade do mal. Os dois falavam da mesma coisa: o que acontece com um povo quando pensar deixa de ser tarefa pessoal.
A dúvida virou defeito de caráter
Nas redes sociais o mesmo processo acontece, só que mais rápido. Um influenciador despeja a opinião dele antes que o fato termine de acontecer. E são tantos ao mesmo tempo que já não dá pra saber o que vem primeiro, a verdade ou a velocidade.
Para todo lado existem respostas prontas. Explicam economia, medicina, guerra, religião, política, inteligência artificial, sempre com a segurança de quem nunca duvidou de nada. Programas, documentários, livros, sites e traquitanas digitais brotam aos milhares todos os dias. Passamos a valorizar a quantidade, e a pressa engoliu a prudência. Então admitir que não sabe alguma coisa virou defeito de caráter, incompatível com a imagem de quem vai construindo a sua autoridade digital.
Sócrates fez da própria ignorância uma espécie de sabedoria. A frase dele, “só sei que nada sei”, hoje soaria como confissão de crime. Não porque seja impossível conhecer as coisas. O aprendizado de verdade só começa quando um homem larga a fantasia de já carregar todas as respostas. Santo Agostinho escreveu bastante sobre a humildade que a realidade cobra de quem tenta entendê-la. São Tomás de Aquino ensinou que a inteligência existe pra se curvar diante da verdade, não pra fabricar uma nova, sob medida e confortável. E, por incrível que pareça, em certas conversas dizer que a grama é verde já é motivo de revolta.
Bonhoeffer viu na estupidez um perigo maior que a maldade
Em 9 de abril de 1945, poucas semanas antes de a Alemanha se render, os nazistas enforcaram Dietrich Bonhoeffer no campo de Flossenbürg. Pastor luterano e teólogo, ele tinha passado exatamente dois anos preso por participar de uma conspiração contra Hitler. Pouco antes da prisão escreveu um balanço dos dez anos de nazismo e entregou aos amigos mais próximos. Um trecho desse texto ficou conhecido como Da estupidez, e ainda incomoda quem lê, oitenta anos depois.
Bonhoeffer dizia que o maior perigo pra uma sociedade não vem da maldade. Vem da estupidez.
Parece absurdo. Estamos acostumados a enxergar o mal com rosto próprio: um criminoso, um tirano vestido de político, um corrupto de gravata cara. Gostamos de acreditar que basta apontar o dedo pros maus e a história para de se repetir. Mas Bonhoeffer mostrou que a maldade desperta reação, resistência e indignação de gente boa. A estupidez não desperta nada disso. Ela se disfarça de virtude, de compromisso, de fidelidade, de consciência política, de dever moral, e por isso passa despercebida bem debaixo do nosso nariz.
O pior é que ela mora dentro de gente muito inteligente, porque não nasce de falta de miolo. Nasce de uma renúncia, a de julgar por conta própria. Quando alguém entrega a consciência a um grupo, a uma ideologia ou a uma autoridade, continua raciocinando e juntando informação, continua fabricando argumento atrás de argumento. Mas para de se perguntar se aquilo corresponde à realidade. Pra mim, essa é a forma mais eficiente de servidão que existe.
Hannah Arendt e a banalidade do mal
Quase vinte anos depois, outra pensadora chegou perto da mesma conclusão por um caminho totalmente diferente. Hannah Arendt foi acompanhar o julgamento de Adolf Eichmann esperando encontrar um monstro. Encontrou um burocrata. Do tipo que diz apenas: eu estava cumprindo ordens.
Eichmann organizou a logística do extermínio de milhões de judeus. Mesmo assim, não tinha traço de sadismo, nem genialidade que saltasse aos olhos, nem perversidade teatral. Parecia funcionário qualquer, arrumadinho, de cabelo bem penteado e educado. Seguia ordem de superior, voltava pra casa à noite, jantava, lia o jornal, dormia, e no dia seguinte fazia tudo de novo. Dali nasceu a expressão banalidade do mal.
Arendt não estava dizendo que o mal era pequeno. Pelo contrário. A banalidade do mal está no jeito de praticá-lo, sem ódio, sem paixão, sem nenhuma reflexão sobre o que aquilo significava. Obediência pura e vazia. A tragédia não morava só nos campos de concentração. Morava também na normalidade fria de quem já tinha desistido de pensar sobre o próprio ato.
Bonhoeffer escreveu pouco antes de entrar numa cela. Arendt observou de dentro de um tribunal. Partiram de lugares diferentes e chegaram perto do mesmo ponto. Uma sociedade começa a ficar perigosa quando o pensamento deixa de ser tarefa pessoal e passa a ser terceirizado para outra cabeça, para o coletivismo.
Como o autoritarismo se alimenta da banalidade do mal
Os regimes autoritários entendem isso melhor do que ninguém. Eles não precisam convencer a população inteira de que estão certos. Basta convencer as pessoas de que pensar por conta própria é desnecessário, porque alguém já pensa por elas. Depois é só reunir uns especialistas pros assuntos incômodos, inventar um inimigo qualquer e repetir a mesma frase todo santo dia, em canais diferentes, até ela parecer óbvia demais pra ser questionada. É aí que a inteligência para de servir à verdade e passa a servir ao poder.
Talvez por isso tantos crimes grandes da história tenham contado com intelectuais, médicos, professores, engenheiros, juízes e jornalistas de currículo consistente. A banalidade do mal precisa exatamente dessa gente, porque escolaridade nunca garantiu discernimento, e inteligência sozinha também não. Já escrevi aqui sobre o papel das virtudes no combate ao extremismo, e o ponto central é esse.
Algoritmos, inteligência artificial e a banalidade do mal de hoje
Nunca tivemos tanto conhecimento ao alcance da mão. Ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil parar de pensar. Os algoritmos escolhem o que vamos ver e ouvir, organizam nossa preferência e confirmam o que já acreditávamos antes mesmo de compreendermos o contexto geral. Depois sugerem um influenciador que entrega a interpretação pronta, embrulhada nas tags certas pra viajar rápido pela rede.
Aí vem a inteligência artificial. Ela resume livro, reforça o argumento a favor do que já pensamos, escreve texto e responde pergunta em segundos. Inclusive esta que você está lendo agora, revisada com a ajuda de uma delas. Isso torna o assunto bem mais incômodo pra mim, e eu não vou fingir que não é.
Nenhuma dessas coisas é o problema em si. São ferramentas. O problema começa quando elas param de ampliar nosso julgamento e passam a substituí-lo por resposta pronta de prateleira. É aí que a banalidade do mal encontra um caminho novo, bem mais confortável que o de 1961. Consultar não é a mesma coisa que delegar, e conhecimento nunca foi sinônimo de discernimento. Usar a ferramenta como ferramenta poupa tempo e facilita a vida em tarefa repetitiva. O ruim é deixar que ela pense no nosso lugar. Essa linha tênue separa quem continua livre de quem apenas repete argumento.
O debate público virou disputa de pertencimento
Por isso o debate público ficou tão previsível, se é que ele ainda existe. Cada grupo tem sua palavra de ordem, seu herói, seu vilão e sua certeza que não se discute mais. Pouca gente investiga o fato antes de tomar posição. As ideias já não se enfrentam de verdade, porque pra alguns até discordar virou crime. Escolhe-se o lado primeiro, e o argumento vem depois, só pra justificar a escolha que já tinha sido feita.
A verdade deixou de orientar o pertencimento. Agora é o pertencimento que decide o que vai servir como verdade. Quando isso chega numa universidade, o desconforto acaba virando violência dentro da sala de aula.
Quanto mais alguém acredita já possuir todas as respostas, menos disposição costuma ter pra examinar a realidade na frente dele. A soberba intelectual raramente se apresenta como arrogância. Ela costuma ser elegante, com um ar de superioridade, e começa sempre no mesmo lugar: quando alguém decide que não precisa mais submeter as próprias convicções ao exame da realidade. A banalidade do mal nasce ali, muito antes de qualquer tragédia aparecer no noticiário.
A liberdade precisa ser exercida como virtude
Por isso eu ainda seguro de perto o aviso que Bonhoeffer e Hannah Arendt deixaram, cada um a seu modo, pro nosso tempo. Nenhum povo está definitivamente protegido contra o autoritarismo disfarçado de bem-estar social. Nenhuma sociedade está vacinada contra líder delirante e carismático ao mesmo tempo. E nenhuma geração está livre da tentação de entregar a própria consciência pra quem promete resposta simples a problema complexo.
Todo regime autoritário nasce concentrando poder. Mas ele só sobrevive quando a responsabilidade individual abdica e deixa o caminho livre pras liberdades serem tomadas a ferro e fogo. Nesse ponto a liberdade deixa de ser um direito garantido no papel e vira virtude, uma disposição permanente pra pensar, investigar, corrigir os próprios erros e resistir à sedução das certezas fáceis que alguém sempre oferece com segunda intenção.
Sócrates começou pela dúvida. Bonhoeffer e Arendt mostraram o preço de aboli-la. A banalidade do mal nunca precisou de gente má pra acontecer, ela precisa de gente que parou de perguntar. Talvez por isso a frase mais verdadeira deste século continue sendo também uma das menos pronunciadas: “eu não sei.”
Porque ela não encerra a conversa. Ela torna a conversa possível.
Jorge Quintão – IoP