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Lei Natural e liberdade rothbardiana

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A lei natural é frequentemente vista com suspeita pelos cientistas sociais porque eles conceituam a natureza humana, e cada vez mais até mesmo a natureza dos animais, como uma construção social. Na visão deles, não há natureza humana essencial com referência à qual possamos decidir o que é do melhor interesse da sociedade. Eles argumentam que devemos, em vez disso, adotar uma abordagem aspiracional, construindo um mundo melhor e mais justo para o planeta e descobrindo o que é melhor para a sociedade por meio de um processo de experimentação científica. A partir dessa perspectiva, as noções de “certo” e “errado” nada mais são do que opiniões majoritárias verificadas por meio de debate e acordo democráticos, e seria irremediavelmente arbitrário e subjetivo decidir o certo e o errado por referência a alguma lei “superior” chamada lei da natureza.

Em The Ethics of Liberty, Murray Rothbard rejeita essas perspectivas, argumentando que o ceticismo com o qual a lei natural é geralmente considerada é totalmente equivocado. Rothbard observa que:

Entre os intelectuais que se consideram “científicos”, a frase “a natureza do homem” pode ter o efeito de uma bandeira vermelha em um touro. “O homem não tem natureza!” é o grito de guerra moderno, e típico do sentimento dos filósofos políticos de hoje foi a afirmação de um distinto teórico político há alguns anos, antes de uma reunião da American Political Science Association, de que a “natureza do homem” é um conceito puramente teológico que deve ser descartado de qualquer discussão científica.

Os positivistas jurídicos estão particularmente interessados em extinguir a ideia de que a lei é baseada em princípios morais. Da mesma forma, muitos utilitaristas avaliam a lei com base em suas consequências para a sociedade, não com base na moralidade. O debate no Reino Unido sobre a descriminalização do “suicídio assistido” é um exemplo do desejo de evitar influências teológicas ou morais no debate sobre a reforma da lei. Não é mais crime no Reino Unido cometer ou tentar cometer suicídio, então não há lei para impedir que alguém cometa suicídio, se desejar, mas qualquer pessoa que ajude outra pessoa a cometer suicídio corre o risco de ser processada pelo crime de “encorajar ou ajudar o suicídio” sob a Lei do Suicídio de 1961 ou mesmo, em casos graves, pelo crime de homicídio. Assim, a descriminalização do suicídio assistido estabeleceria que não é ilegal ajudar o suicídio, e os defensores do suicídio assistido argumentam que considerações “morais” não devem entrar no debate sobre a descriminalização.

O édito bíblico “Não cometerás assassinato” durante séculos foi suficiente para muitas pessoas como uma explicação de por que o assassinato é proibido. Portanto, há muito se supõe que qualquer argumento de que o assassinato é “errado” no sentido moral deve necessariamente ser um princípio religioso. Isso explica por que qualquer tentativa de introduzir argumentos “morais” no debate sobre o suicídio assistido é tratada como uma tentativa inadequada de introduzir a teologia na lei. Os princípios religiosos são, é claro, obrigatórios apenas para seus próprios seguidores, portanto, em uma era secular, é considerado preferível dizer que o assassinato é ilegal e que a razão pela qual não se deve cometer assassinato é que a lei o proíbe.

Neste exemplo, os reformadores a favor da descriminalização descartam os argumentos de seus oponentes como argumentos “morais”, insistindo que apenas os argumentos que podem ser justificados sem afirmar que o suicídio assistido seria “errado” no sentido moral constituiriam uma objeção válida às suas propostas. Mas os argumentos mais fortes contra a legalização do suicídio assistido que são apresentados por grupos de deficientes e por órgãos profissionais, incluindo a Associação Médica Mundial, são argumentos morais, embora não sejam evidentemente religiosos. Além disso, os próprios defensores da legalização usam argumentos morais para apoiar seu argumento, principalmente que devemos respeitar uma escolha autônoma de se matar e obter assistência para fazê-lo, e que a sociedade tem o dever moral de acabar com o sofrimento. Assim, o ex-presidente da Suprema Corte, Lord Judge, observou que a descriminalização do suicídio assistido é “o grande problema moral e legal de nossos tempos”.

Confundir moralidade com religião, na tentativa de excluir argumentos morais do debate público, é, portanto, um erro. A visão de que algo é “moralmente errado” não é, em si, uma visão religiosa. O fato de muitas pessoas serem religiosas e poderem basear seus princípios morais pessoais em sua religião não significa que todos os princípios morais sejam baseados na religião. Tampouco significa que os princípios morais seculares devam ser entendidos como uma “religião cultural” no estilo Dawkinsiano, na qual as visões religiosas são adotadas por razões culturais com a divindade convenientemente extirpada. Afinal, não é preciso ser religioso para abraçar os éditos cristãos “Não roubarás” ou “Não cometerás assassinato”, e é nesse sentido que Richard Dawkins poderia, sem se contradizer, expressar sua admiração pelos princípios cristãos, apesar de ser ateu:

Talvez para surpresa de muitos, Richard Dawkins, famoso “Novo Ateu” do passado, em uma recente entrevista de rádio chamou a si mesmo de “cristão cultural”. Ele foi rápido em esclarecer que “não é um crente” nos ensinamentos reais do cristianismo, mas mesmo assim disse ao entrevistador: “Eu amo hinos e canções de Natal, e meio que me sinto em casa no ethos cristão. Sinto que somos um país cristão nesse sentido.”

Isso leva muitos a supor erroneamente que a referência a princípios morais é algum tipo de “teologia cultural” na qual os princípios divinos são adotados sem referência explícita ao divino. Eles não conseguem apreciar a clara distinção analítica entre princípios morais e decretos religiosos.

Razão e racionalidade

Contra esse pano de fundo, a análise de Rothbard da lei natural pode ser entendida como parte de uma tradição da lei natural que tenta identificar princípios da lei natural baseados puramente na razão, inteiramente distintos dos princípios derivados da “lei divina”. Rothbard rejeita a ideia de que “a lei natural e a teologia estão inextricavelmente entrelaçadas”. Em sua opinião, a lei natural baseada na razão não é um conjunto de opiniões religiosas ou ideológicas subjetivas, mas um conjunto de princípios objetivos derivados da natureza humana.

A lei natural também não é um conjunto de normas culturais que compreendem princípios religiosos com a divindade convenientemente expurgada no sentido dawkinsiano. Rothbard rejeita a alegação de que, através da lei natural, “Deus e o misticismo estão sendo introduzidos pela porta dos fundos”. Ele deixa claro que a lei natural, na tradição em que se baseia, é “puramente racionalista e não teológica” e insiste na “independência absoluta da lei natural da questão da existência de Deus”.

Os princípios da lei natural não são derivados de forma alguma de princípios teológicos, mas por um processo independente de “razão e investigação racional”. A lei natural nesta tradição enfatiza “a capacidade da razão do homem de entender e chegar às leis, físicas e éticas, da ordem natural”. Rothbard explica que “o instrumento pelo qual o homem apreende tal lei é sua razão – não a fé, ou a intuição, ou a graça, a revelação, ou qualquer outra coisa”.

A ordem natural, na qual a natureza humana deve ser entendida e contida, é, portanto, central para o relato de Rothbard sobre a lei natural. A lei natural é baseada na realidade, incluindo a realidade da natureza humana, e rejeita a noção do cientista social moderno de que a realidade é uma construção social que pode ser qualquer coisa que as pessoas escolham que seja. Rothbard cita Thomas E. Davitt:

Se a palavra “natural” significa alguma coisa, ela se refere à natureza de um homem e, quando usada com “lei”, “natural” deve se referir a uma ordenação que se manifesta nas inclinações da natureza de um homem e a nada mais.

Rothbard enfatiza que a natureza não é de forma alguma uma ideia “mística” ou “sobrenatural”, mas se refere aos atributos das coisas que podem ser identificadas pela observação de causa e efeito: “O comportamento observável de cada uma dessas entidades é a lei de suas naturezas, e essa lei inclui o que acontece como resultado das interações” – referindo-se aqui às interações que ocorrem “quando essas várias coisas se encontram e interagem”. Nesse sentido, sendo manifestados na natureza humana, os princípios da lei natural são universais e objetivos.

O fato de que a lei natural é universal é muito importante. Isso explica por que seres humanos de diferentes tribos e nações podem aprender uns com os outros e evitar os erros uns dos outros. Por referência aos princípios da lei natural, derivados da razão e da racionalidade, podemos determinar o que é objetivamente bom ou objetivamente ruim para a sociedade. Os princípios da lei natural não refletem a natureza de um homem em particular, ou de um grupo, nação, cultura ou raça de homens em particular, nem as opiniões e preferências subjetivas de ninguém, mas refletem a natureza essencial dos seres humanos. Como Rothbard coloca, “a razão do homem é objetiva, ou seja, pode ser empregada por todos os homens para produzir verdades sobre o mundo”.

O objetivo de Rothbard ao se basear na lei natural é formular uma teoria coerente da liberdade baseada na propriedade privada. Mas há mais – ele também lança luz sobre os passos que as pessoas devem tomar para escolher quais fins perseguir e como podem alcançar resultados bons e moralmente justos. Como Rothbard explica: “Pois os próprios fins são selecionados pelo uso da razão; e a ‘razão correta’ dita ao homem seus fins adequados, bem como os meios para sua realização”.


Wanjiru Njoya é aluna residente do Mises Institute. Ela é autora de Economic Freedom and Social Justice (2021), Redressing Historical Injustice (2023, com David Gordon) e A Critique of Equality Legislation in Liberal Market Economies (Journal of Libertarian Studies, 2021).

Fonte: Mises Institute

Sobre obediência, conformidade e imoralidade

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Stanley Milgram, psicólogo social da Universidade de Yale, realizou um dos estudos mais controversos e influentes da psicologia no século XX. Seu experimento, conduzido na década de 1960, tinha como objetivo investigar a obediência à autoridade e até que ponto as pessoas estariam dispostas a seguir ordens que contradiziam seus princípios morais.

O contexto do estudo era simples, mas o impacto de suas descobertas foi profundo. Milgram recrutou voluntários para participar de um experimento sobre “memória e aprendizado”, no qual foram instruídos a aplicar choques elétricos em outro participante sempre que este cometesse um erro em uma tarefa de memorização. O que os voluntários não sabiam era que o “aprendiz” era um ator e que os choques não eram reais. O verdadeiro objetivo do experimento era observar até onde os participantes iriam na aplicação dos choques, sob a direção de uma figura de autoridade.

Os resultados foram chocantes. A grande maioria dos participantes, mesmo demonstrando desconforto e hesitação, continuou a aplicar choques de intensidade crescente, simplesmente porque foram instruídos a fazê-lo por uma autoridade. Milgram concluiu que a obediência à autoridade pode levar pessoas comuns a cometerem atos terríveis, sugerindo que, sob certas circunstâncias, qualquer pessoa pode se tornar um agente de crueldade.

A relevância do estudo de Milgram é amplificada quando consideramos o contexto histórico em que foi conduzido. O experimento foi inspirado pelas atrocidades cometidas durante o regime nazista, quando muitos perpetradores de crimes de guerra alegaram estar “apenas cumprindo ordens”. A pesquisa de Milgram forneceu uma base psicológica para entender como indivíduos aparentemente normais podem ser conduzidos a realizar ações moralmente reprováveis.

As implicações sociais desse estudo são vastas e perturbadoras. Ele revela uma tendência humana de abdicar da responsabilidade moral em favor da conformidade com a autoridade, um comportamento que pode ter consequências devastadoras em contextos como guerras, genocídios, e mesmo no cotidiano, em situações de bullying ou assédio. A desumanização, facilitada pela obediência cega, é um fenômeno que Milgram desnudou em seu experimento, e que continua a ser um alerta para a sociedade.

Os resultados também lançam questões éticas sobre o poder das instituições e das figuras de autoridade na modelagem do comportamento humano. Desafiam a crença de que só os indivíduos com tendências sádicas ou psicopáticas podem cometer atos cruéis, sugerindo que, sob as condições corretas, qualquer pessoa pode ser levada a agir contra seus princípios morais mais básicos.

Haffner e a desumanização de judeus

Sebastian Haffner, um renomado jornalista e historiador alemão, também mergulhou profundamente na investigação das origens do mal, especialmente no contexto da ascensão do nazismo. Em suas obras, Haffner analisou como o regime de Hitler conseguiu manipular a sociedade alemã e transformar cidadãos comuns em cúmplices de atrocidades. Ele explorou como, após a Primeira Guerra Mundial, muitos alemães, desiludidos e em busca de estabilidade, foram atraídos pelas promessas de grandeza nacional feitas pelos nazistas.

Haffner destacou que essa busca por estabilidade e sentido após o trauma da guerra contribuiu para uma aceitação silenciosa do totalitarismo. A promessa de um renascimento nacional e a instabilidade social ajudaram a criar um ambiente em que a conformidade social e o medo predominavam. Esse contexto facilitou a desumanização das vítimas e levou muitos a apoiarem tacitamente um regime que cometeu crimes horrendos.

Sua análise revela como a combinação de desilusão, a promessa de estabilidade e o medo pode ser usada para manipular a opinião pública e consolidar o poder de regimes autoritários. A conformidade social, aliada ao medo e à falta de significado, desempenha um papel crucial na facilitação do domínio do mal, como demonstrado pela ascensão do nazismo e a transformação de uma sociedade aparentemente normal em cúmplices de atrocidades.

Arendt e as origens do totalitarismo

Hannah Arendt, a conhecida filósofa e teórica política, também abordou a questão das origens do mal em suas obras, especialmente em “As Origens do Totalitarismo” e “Eichmann em Jerusalém”. Arendt explicou como os regimes totalitários, neste caso o nazismo e o estalinismo, conseguiram estabelecer-se e perpetuar-se.

Um dos conceitos centrais de Arendt é a “banalidade do mal”, que ela desenvolveu ao analisar o julgamento de Adolf Eichmann, um dos principais responsáveis pela logística do Holocausto. Ao tentar escrever o relatório sobre o julgamento de Eichmann, Arendt presumiu que Eichmann não era um fanático ou psicopata malvado. Pelo contrário, ele era um burocrata banal e medíocre que, através do seu cumprimento do sistema de ordens, degenerou num agente de atrocidades.

Arendt destacou como a desumanização dos indivíduos e a obediência cega às autoridades podem levar a atrocidades em larga escala. Ela analisou como o totalitarismo explora a conformidade e o pensamento unidimensional para eliminar a responsabilidade moral e ética, transformando ações cruéis em deveres administrativos e, assim, facilitando o mal em grande escala.

Sua análise também focou em como regimes totalitários manipulam ideologias para justificar suas ações e mobilizar apoio, transformando a violência em uma ferramenta para a construção de uma utopia ideológica. Arendt, assim, contribuiu significativamente para a compreensão das dinâmicas que permitem o surgimento e a perpetuação do mal em contextos totalitários, oferecendo uma perspectiva sobre como a normalização de práticas brutais pode ocorrer por meio da conformidade e da desumanização.

Obediência, conformidade e imoralidade juntas

Os estudos de Sebastian Haffner, Hannah Arendt e Stanley Milgram nos dão variados pontos de vista sobre o mesmo tema de como a modernidade e o desejo de controle pelo governante e pelo establishment forjam o procedimento humano e a moralidade. Haffner analisou a ascensão do nazismo e como o vazio existencial e a busca por estabilidade permitiram que a manipulação ideológica transformasse cidadãos comuns em cúmplices silenciosos das atrocidades do regime, mesmo sabendo que suas ações são moralmente questionáveis.

Esses estudos se conectam ao refletir sobre a modernidade e o desejo de controle das instituições sobre o comportamento individual. Haffner e Arendt exploraram como regimes totalitários e ideologias manipuladoras podem criar um ambiente onde a responsabilidade moral é diluída e as ações cruéis são justificadas por um desejo de controle e poder. Milgram, ao mostrar como a obediência a uma autoridade pode levar à prática de atos moralmente questionáveis, revela como essa dinâmica de controle se manifesta em contextos mais sutis, como experimentos sociais, e como a confiança nas instituições e na autoridade pode minar a responsabilidade pessoal.

Tais estudos ilustram como a fragilidade moral da modernidade, com suas estruturas de poder e controle, pode enfraquecer o senso crítico e a responsabilidade individual, levando a uma conformidade que permite a perpetuação de práticas prejudiciais e injustas. A interseção desses insights nos convida a questionar o papel das instituições e das figuras de autoridade em moldar nosso comportamento e a refletir sobre a importância de manter um senso de responsabilidade pessoal e ética frente à pressão e ao controle social.

Para saber mais

Haffner, Sebastian. A Revolução de 1918-1919 na Alemanha. Companhia das Letras, 2004. Livro que explora a ascensão do nazismo e a manipulação ideológica que transformou a sociedade alemã.

Arendt, Hannah. A Banalidade do Mal: O Relato sobre o Julgamento de Adolf Eichmann. Editora Perspectiva, 2004. Análise do julgamento de Eichmann e a ideia de “banalidade do mal”, que investiga como a obediência e a conformidade podem levar a atos cruéis.

Milgram, Stanley. Obedience to Authority: An Experimental View. Harper & Row, 1974. Relato detalhado do experimento de obediência e suas implicações sobre como indivíduos podem agir contra sua moralidade sob a influência de uma autoridade.

Giddens, Anthony. Modernidade e Identidade: A Busca por Identidade no Mundo Moderno. Editora UNESP, 1991. Examina como a modernidade afeta a percepção de identidade e a adaptação a novos padrões sociais e éticos.

SciELO. “Stanley Milgram e o Experimento da Obediência: Uma Revisão Crítica”. Disponível em: https://www.scielo.br/j/se/a/PWkPLyXbvd7TTYHq5MqNg8c/. Artigo de referência sobre o trabalho de Milgram e a crítica aos seus métodos e implicações.

Fonte: Pesquisa Jorge Quintão – IoP

Gabriel Medina, o surfe e a economia

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Outro dia, assisti às finais do surfe. Gabriel Medina, nosso melhor surfista masculino, foi para água e não vieram ondas. Acabou com a medalha de bronze, mostrando espírito competitivo e determinação, lutou bravamente até o fim. Em dado momento, um dos comentaristas do SporTV disse ter recebido mensagens no WhatsApp de pessoas reclamando. Elas diziam que não era justo, que devia haver onda para todos. Um teria sugerido que as competições fossem em piscinas artificias, pois, aí sim, seria justo.

Essa visão de justiça lembra um conceito abordado por Ayn Rand em “A Revolta de Atlas”, onde ela critica a ideia de que todos devem ter resultados iguais independentemente de seus esforços ou habilidades. Rand argumenta que tal perspectiva ignora a realidade e as virtudes do indivíduo, promovendo uma falsa igualdade que sufoca a inovação e o mérito.

No mar, assim como na vida, não há ondas para todos na hora que se precisa. Ou seja, a regra da escassez se aplica às competições de surfe. Há duas formas de encarar isso. Uma, é aceitar a realidade e partir para a próxima. Winston Churchill dizia: “O sucesso não é final, o fracasso não é fatal: é a coragem de continuar que conta.” A outra, bem diferente, é querer alterar a realidade, desejar ondas para todos, medalhas para todos e recusar a realidade.

O esporte tem sido firme em nos mostrar que isso não funciona. Ao sagrar-se vencedor do MMA, Renato Moicano disse que não há vitória para todos. Há competição, e um sairá campeão. Ao final de uma luta da última luta da competição que venceu, ele recomendou, inclusive, a leitura de “As Seis Lições” de Ludwig Von Mises.

O grande economista austríaco aborda exatamente esse ponto: a escassez é uma condição inerente à vida. No mercado, como nas ondas, não há recursos infinitos. Todos têm que lidar com essa realidade, e a forma como cada um se adapta a ela define suas conquistas e fracassos.

No surfe, Gabriel Medina nos mostra a importância de estar preparado para o imprevisível. O mesmo princípio se aplica à economia de mercado, onde a habilidade de se adaptar a mudanças e adversidades é crucial. Empresas que se preparam para as oscilações do mercado, que investem em inovação e que conseguem se ajustar rapidamente às mudanças de demanda e oferta, tendem a prosperar. As que não conseguem, infelizmente, ficam para trás.

A proposta de realizar competições de surfe em piscinas artificiais, onde as condições são controladas e iguais para todos, pode parecer sedutoramente justa à primeira vista. Contudo, ela ignora a essência do surfe e do próprio mercado. No surfe, a imprevisibilidade das ondas é parte do desafio e da beleza do esporte. Da mesma forma, no mercado, a incerteza e a variação são o que impulsionam a inovação e a eficiência.

Tentar criar um ambiente artificialmente justo pode, na verdade, levar à estagnação. Sem o desafio das ondas imprevisíveis, os surfistas não desenvolveriam a mesma habilidade e resiliência. Da mesma forma, um mercado excessivamente regulado e protegido contra a concorrência e as oscilações econômicas pode sufocar a inovação e o crescimento.

A história econômica está repleta de exemplos de países e empresas que prosperaram justamente por aceitarem e se adaptarem à realidade da escassez e da competição. Hong Kong e Cingapura, por exemplo, se destacaram ao adotarem políticas de mercado livre, enquanto outras nações, ao tentarem controlar e regular excessivamente seus mercados, enfrentaram estagnação, declínio da criatividade, ausência de inovação e dificuldades econômicas.

Portanto, a situação de Medina e a lição de von Mises convergem para um ponto fundamental: a aceitação da realidade e a capacidade de adaptação são essenciais tanto no esporte quanto na economia. O verdadeiro espírito competitivo e a determinação não estão em buscar condições ideais e controladas, mas em enfrentar e superar os desafios que a realidade impõe.

Esse espírito é o que impulsiona o progresso. No fim das contas, o que faz um campeão, seja no surfe ou no mercado, não é a ausência de obstáculos, mas a capacidade de superá-los. Medina, com sua medalha de bronze, nos mostra que mesmo diante das adversidades, é possível alcançar grandes feitos. Da mesma forma, empresas e economias que abraçam a competição e a escassez, adaptando-se e inovando, são aquelas que, a longo prazo, conquistam o verdadeiro sucesso.

A mensagem de Churchill ressoa poderosamente nesse contexto e vale repeti-la: “O sucesso não é final, o fracasso não é fatal: é a coragem de continuar que conta.” Gabriel Medina, ao aceitar as condições adversas e ainda assim competir com bravura pelo bronze, exemplifica essa coragem. Ele não se deixou abater pela falta de ondas, mas perseverou, mostrando que o verdadeiro valor está na persistência diante das dificuldades. De mais a mais, haverá outras oportunidades, outros campeonatos e outras olimpíadas.

Essa filosofia é igualmente aplicável à economia. Empresas e nações que reconhecem a realidade da escassez, que se adaptam e continuam a inovar, são as que se destacam e prosperam. Não é a busca por um ambiente artificialmente perfeito que traz o progresso, mas a determinação de continuar, aprender e melhorar continuamente. Assim como Medina, que encara cada onda como uma oportunidade, economias que veem desafios como chances de crescimento são aquelas que verdadeiramente avançam.

Mesmo quando a medalha de ouro escapa, a luta pelo bronze ensina a importância de valorizar cada conquista e usar cada experiência como preparação para futuras batalhas. No surfe e na economia, o espírito competitivo e a capacidade de adaptação são essenciais para superar os obstáculos e alcançar o sucesso. Gabriel Medina nos mostra que, com coragem e determinação, é possível transformar desafios em vitórias, preparando-se continuamente para as próximas ondas e campeonatos.

Em última análise, tanto no surfe quanto na economia, é a perseverança frente às adversidades que define os campeões. A capacidade de aceitar a realidade, adaptar-se e seguir em frente é o que leva ao sucesso duradouro. Gabriel Medina, com sua determinação inabalável, nos lembra que a verdadeira vitória está na coragem de continuar, independentemente das ondas que a vida nos oferece.


Leonardo Corrêa, advogado – LL.M (Latin Legum Magister) pela University of Pennsylvania (EUA).

Fonte: Mises Brasil

Para saber mais:

Ayn Rand

  • “A Revolta de Atlas” – Obra fundamental onde Ayn Rand explora o individualismo, a meritocracia e o conceito de justiça baseado no esforço pessoal.

Winston Churchill

  • “Memórias da Segunda Guerra Mundial” – Além de seus discursos, Churchill traz lições sobre resiliência e determinação, conceitos abordados no artigo.

Ludwig von Mises

  • “As Seis Lições” – Neste pequeno e impactante livro, Mises discute temas centrais como escassez, livre mercado e o papel do indivíduo na economia.

Adam Smith

  • “A Riqueza das Nações” – Clássico sobre economia de mercado, onde Smith explica as leis da oferta, demanda e escassez, conceitos aplicáveis ao tema do artigo.

Friedrich Hayek

  • “O Caminho da Servidão” – Neste livro, Hayek aborda o perigo de intervenções excessivas e regulações que podem sufocar a liberdade e a inovação, ligando-se ao debate sobre a justiça artificial no esporte e economia.

Por que pessoas comuns permitem líderes totalitários? – Parte 2

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Por que pessoas comuns permitem líderes totalitários?

Na parte 1 deste ensaio, exploramos a percepção de Sebastian Haffner de que os alemães que perderam o contato com o impulso humano inato de criar e viver uma vida significativa tinham mais probabilidade de se tornarem nazistas. Haffner argumentou que muitos nazistas não compreendiam as consequências de seu fracasso moral. “A maioria deles”, escreveu ele, “ficaria profundamente chocada se alguém sugerisse que o que eles realmente defendiam eram câmaras de tortura e pogroms (um termo russo que significa “causar estragos, destruir violentamente” oficialmente decretados).”

Hitler chegou ao poder em 1933, em parte, prometendo, nas palavras de Haffner, “tudo a todos”, o que naturalmente lhe trouxe um vasto e disperso exército de seguidores e eleitores entre os ignorantes, os decepcionados e os miseráveis. A disposição de renunciar à autossuficiência e ao Estado de direito em favor de vantagens para poucos se tornou um terreno fértil para o que se seguiu.

Hitler rapidamente emitiu diretivas totalitárias, e Haffner ficou atordoado: “O que aconteceu com os alemães?… A maioria deles votou contra Hitler… Como foi possível que não tenha havido a menor reação visível [da maioria]?”

Uma explicação óbvia era o medo, mas os insights de Haffner foram mais profundos. Ele reconheceu uma mentalidade comum entre os alemães de não fazer nada que pudesse atrapalhar sua vida – algo audacioso ou fora do comum.

Vemos o mesmo comportamento de autoproteção na América de hoje. Todos os dias, surgem novos exemplos, mas hoje li sobre o Dr. Mike Joyner, que está sendo “disciplinado” pela Clínica Mayo por sua disposição em escrever sobre a vantagem que a testosterona dá aos atletas natos do sexo masculino. Sem dúvida, muitos dos colegas do Dr. Joyner entendem ou respeitam sua posição, mas permanecem em silêncio por medo de suas carreiras.

Não está claro no manuscrito de Haffner se ele estava ciente das ideias de Jung e Freud sobre projeção. Aqueles que vivem uma vida sem sentido inevitavelmente projetam nos outros a vergonha e a culpa por suas próprias escolhas ruins. Para reforçar sua identidade pessoal, eles são levados a atacar os outros sem pensar. Ataque não significa necessariamente, ou mesmo tipicamente, um ataque físico. Projetar nos outros tudo o que se odeia em si mesmo é uma forma de ataque. Ver os outros como objetos de repulsa é uma forma de ataque. O ódio sancionado pelo Estado é um mecanismo que os autoritários usam para investir em mentes condicionadas a atacar.

Haffner relatou a ascensão do ódio sancionado pelo Estado. Em 1933, ele era um referendário (advogado em treinamento) para o Kammergericht (a suprema corte de Berlim). Logo após o governo nazista organizar boicotes a lojas judaicas, advogados judeus se tornaram um alvo. Um dia, Haffner ouviu um “barulho de passos do lado de fora no corredor, o som de botas ásperas nas escadas, então um barulho distante e indistinto, gritos, portas batendo”. Como uma cena de muitos filmes, a SA (Sturmabteilung), uma tropa de assalto da ala paramilitar do partido nazista, havia chegado.

Haffner estava na biblioteca jurídica e ouviu um de seus colegas dizer: “Eles estão expulsando os judeus”. Outros começaram a rir. Haffner, que não era judeu, escreveu: “Naquele momento, essa risada me alarmou mais do que o que estava realmente acontecendo. Com um sobressalto, percebi que havia nazistas trabalhando nesta sala”. Haffner ficou desorientado ao perceber que entre seus colegas havia antissemitas que agora se sentiam livres para compartilhar seu ódio.

Mais tarde, um homem da SA se aproxima da mesa de Haffner e pergunta: “Você é ariano?” Haffner revelou: “Antes que eu tivesse a chance de pensar, eu disse: ‘Sim’… Um momento tarde demais, senti a vergonha, a derrota… Que humilhação, ter respondido à pergunta injustificada sobre se eu era ‘ariano’ tão facilmente… Eu tinha falhado no meu primeiro teste. Eu poderia ter me dado um tapa.”

Ao ler o depoimento de Haffner, percebi que, se eu estivesse no lugar dele, teria me comportado da mesma forma. Entendi em um nível mais profundo que a melhor salvaguarda da liberdade é o apoio social a um sistema que previna abusos de poder antes que atos individuais de heroísmo sejam necessários. Quando manter a liberdade requer resistir à ameaça de violência, provavelmente é tarde demais.

No parque com sua namorada, Haffner percebeu que o vírus mental do antissemitismo havia infectado o país. Era um dia de passeios escolares e, à medida que cada grupo de “adolescentes de rosto fresco acompanhados e supervisionados por seus professores… passava, [eles] gritavam ‘Juda verrecke!’ (pereçam os judeus) para nós em suas vozes jovens e brilhantes, como se fosse uma espécie de saudação de caminhante.”

Em uma contribuição significativa para nossa compreensão do ódio sancionado pelo Estado, Haffner explorou o truque mental que os nazistas usaram não apenas contra os judeus, mas contra outras nações e grupos. Os nazistas transformaram seu ódio ao provocar conversas, não sobre seu ódio, mas sobre a “questão judaica”. Haffner escreveu: “Ao ameaçar publicamente uma pessoa, um grupo étnico, uma nação ou uma região com morte e destruição, eles provocam uma discussão geral não sobre sua própria existência, mas sobre o direito de suas vítimas de existirem”. Haffner relatou:

De repente, todos se sentiram justificados, e de fato obrigados, a ter uma opinião sobre os judeus e a declará-la publicamente. Distinções foram feitas entre judeus “decentes” e os outros. Se alguns apontassem para as realizações de cientistas, artistas e médicos judeus para justificar os judeus (justificar? para quê? contra o quê?), outros rebateriam que eles eram uma “influência estrangeira” prejudicial nessas esferas.

Prenunciando a política de identidade de hoje, que exige igualdade de resultados, Haffner escreveu:

De fato, logo se tornou costumeiro contar contra os judeus se eles tinham uma profissão respeitável ou intelectualmente valiosa. Isso foi tratado como um crime ou, no mínimo, uma falta de tato. Os defensores dos judeus foram informados com desagrado que era repreensível dos judeus terem tal e tal porcentagem de médicos, advogados, jornalistas, etc. De fato, cálculos de porcentagem eram um ingrediente popular da “questão judaica”.

Então, Haffner explicou claramente por que o nazismo e, de fato, todo tribalismo é uma ameaça existencial à humanidade. Ele raciocinou: “O antissemitismo nazista não tinha nada a ver com as virtudes ou vícios dos judeus”. Para Haffner, as justificativas que os nazistas deram para seus programas contra os judeus eram “um completo absurdo” e, portanto, não o verdadeiro horror. O que Haffner reconheceu foi que os nazistas foram os primeiros na história “a negar aos humanos a solidariedade de todas as espécies que os capacita a sobreviver; a transformar os instintos predatórios humanos, que normalmente são direcionados contra outros animais, contra membros de sua própria espécie, e a transformar uma nação inteira em uma matilha de cães de caça”.

De forma assustadora, Haffner previu que uma vez que esse apelo ao pior da natureza humana é “despertado… e até mesmo transformado em um dever, é uma questão simples mudar o alvo. Isso pode ser visto claramente hoje; em vez de “judeus”, pode-se facilmente dizer “tchecos” ou “poloneses” ou qualquer outra pessoa.” Haffner explicou por que a civilização estava em jogo:

Temos aqui a infecção sistemática de uma nação inteira, a Alemanha, com um germe que faz com que seu povo trate suas vítimas como lobos; ou, para colocar de outra forma, a libertação e revitalização precisamente daqueles instintos sádicos cujo acorrentamento e contenção têm sido o trabalho de mil anos de civilização.

Assim, Haffner alertou: “Se o núcleo central do programa nazista se tornasse realidade, isso representaria uma grande crise para a humanidade e colocaria a sobrevivência da espécie Homo sapiens em risco”.

O programa nazista se tornou realidade, mas a humanidade sobreviveu. Com a religião da justiça social das identidades de grupo ascendendo, a humanidade está novamente em risco?

Na introdução de seu diário de 1829, Ralph Waldo Emerson escreveu: “Imagine a esperança sendo removida do peito humano e veja como a sociedade afundará, como as fortes faixas de ordem e melhoria serão relaxadas e que quietude mortal tomaria o lugar das energias inquietas que agora movem o mundo.” Haffner esperava que seu país despertasse, mas a história instrui como as ações dos seres humanos podem criar um sofrimento humano inimaginável. Para evitar o pior, devemos aprender as lições da história.


Fonte: American Institute for Economic Research

Barry Brownstein é professor emérito de economia e liderança na Universidade de Baltimore. É autor de The Inner-Work of Leadership, e seus ensaios foram publicados em periódicos como Foundation for Economic Education e Intellectual Takeout.

Tradução: IoP

Para saber mais

Haffner, Sebastian. Desafiando Hitler: Uma Memória. Editora Companhia das Letras, 2003. Uma análise aprofundada da ascensão de Hitler e das condições que permitiram seu poder.

Mises, Ludwig von. Sobre Dinheiro e Inflação. Editora Instituto Mises Brasil, 2015. Uma obra essencial para entender a teoria econômica por trás da hiperinflação e seus impactos.

Arendt, Hannah. Origens do Totalitarismo. Editora Companhia das Letras, 2018. Explora as raízes e os mecanismos do totalitarismo, oferecendo uma perspectiva crítica sobre regimes autoritários.

Kershaw, Ian. Hitler: 1889-1936: Hubris. Editora Objetiva, 2000. Uma biografia abrangente de Adolf Hitler, cobrindo suas origens e ascensão ao poder.

Burleigh, Michael. A Terceira Reich: Uma História. Editora Record, 2001. Um relato detalhado sobre o regime nazista e sua influência na história moderna.

Por que pessoas comuns permitem líderes totalitários? – Parte 1

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Foto: Karsten Winegeart/Unsplash

Cícero afirmou que a história “ilumina a realidade e serve como guia para a vida”. A sabedoria adquirida pela compreensão do passado ajuda a evitar que os mesmos erros sejam repetidos.

Sebastian Haffner buscou respostas para as perguntas de como os nazistas chegaram ao poder na Alemanha e por que o povo alemão não os impediu. Em 1939, ele escreveu, mas nunca completou seu livro parcialmente autobiográfico “Desafiando Hitler: Uma Memória”. A análise investigativa de Haffner o levou a concluir que as escolhas e a mentalidade dos alemães comuns foram responsáveis pela ascensão de Hitler ao poder. Os alemães foram tanto facilitadores quanto vítimas de Hitler.

Haffner era o pseudônimo de Raimund Pretzel. Haffner foi treinado como advogado, mas as circunstâncias o levaram a seguir uma carreira como historiador e jornalista. Ele fugiu da Alemanha nazista para a Inglaterra em 1938.

Por que deveríamos nos importar com a explicação de Haffner sobre eventos históricos em termos de mentalidades das pessoas comuns? Afinal, como Haffner observou, a teoria do grande homem da história é amplamente aceita:

Se você ler livros de história comuns — que, muitas vezes, contêm apenas o esboço dos eventos, e não os eventos em si — terá a impressão de que não mais que algumas dezenas de pessoas estão envolvidas, que por acaso estão “no comando do navio do estado” e cujas ações e decisões formam o que chamamos de história.

Se você procura pelos grandes homens, escreveu Haffner, você acreditará que a história da década de 1930 “é uma espécie de jogo de xadrez entre Hitler, Mussolini, Chiang Kai-shek, Roosevelt, Chamberlain, Daladier e vários outros homens cujos nomes são amplamente conhecidos”.

Quando aceitamos a teoria do grande homem, as pessoas comuns têm pouca responsabilidade. Elas são vistas, nas palavras de Haffner, como “outros anônimos [que] parecem, na melhor das hipóteses, ser objetos da história, peões no jogo de xadrez, que podem ser empurrados para frente ou deixados parados, sacrificados ou capturados”.

Haffner rejeitou o princípio do grande homem e articulou “a simples verdade” de que “eventos históricos decisivos acontecem entre nós, as massas anônimas”. Ele explicou:

Os ditadores, ministros e generais mais poderosos são impotentes contra as decisões simultâneas de massa tomadas individualmente e quase inconscientemente pela população em geral. É característico dessas decisões que elas não se manifestem como movimentos de massa ou demonstrações. Assembleias de massa são completamente incapazes de ação independente.

Haffner nasceu em 1907. Ele descreveu sua experiência como estudante durante a Primeira Guerra Mundial que moldou sua mentalidade: “De 1914 a 1918, uma geração de estudantes alemães vivenciou diariamente a guerra como um grande, emocionante e fascinante jogo entre nações, que proporcionava muito mais excitação e satisfação emocional do que qualquer coisa que a paz pudesse oferecer”.

Para os estudantes, a vida real parecia muito comum: “Ia-se à escola, aprendia-se a ler, escrever e aritmética, e mais tarde latim e história; brincava-se com os amigos, saía-se com os pais — mas isso era vida? A vida ganhava sua emoção, o dia sua cor, dos eventos militares atuais”.

Haffner descreveu a si mesmo como “um fã de guerra, assim como alguém é fã de futebol”. Haffner não se envolveu em campanhas de ódio, mas tinha um “fascínio pelo jogo de guerra, no qual, de acordo com certas regras misteriosas, o número de prisioneiros capturados, milhas de avanço, fortificações apreendidas e navios afundados desempenhavam quase o mesmo papel que os gols no futebol e os pontos no boxe”.

As atitudes de guerra inculcadas nas mentes desses estudantes foram precursoras do “entusiasmo pela ação” dos nazistas e de “sua intolerância e crueldade para com os oponentes internos”.

Potenciais “Hitlers” sempre viveram entre nós, mas a Inglaterra e a França não se voltaram para um. O que era diferente na Alemanha?

Após a Primeira Guerra Mundial, a paz na Alemanha veio acompanhada de hiperinflação, que obliterou toda a riqueza. Haffner descreveu o que os economistas austríacos chamariam de alta preferência temporal entre os jovens alemães: “Em meio a toda a miséria, desespero e pobreza, havia um ar de juventude leviana, licenciosidade e carnaval”. O dinheiro, ele relatou, “foi gasto como nunca antes ou depois; e não nas coisas em que os velhos gastam seu dinheiro”.

Os laços da civilização se desgastam durante a hiperinflação. Como Ludwig von Mises explicou em “Sobre Dinheiro e Inflação”: “A verdade é que o governo — que é o recurso à violência — não pode produzir nada. Tudo o que é produzido é produzido pelas atividades de indivíduos e é usado no mercado para receber algo em troca”.

Sem um estoque estável de valor, a troca voluntária se torna difícil. Como von Mises escreve, “A cooperação social entre os homens — e isso significa o mercado — é o que traz a civilização”. Quando o dinheiro se torna inútil, “tudo o que a civilização criou” está em risco.

No verão de 1924, a estabilidade monetária havia retornado, e Haffner viu que, apesar da paz e da estabilidade monetária, a mentalidade de muitos alemães preparava o cenário para um futuro perigoso:

Uma geração de jovens alemães se acostumou a ter todo o conteúdo de suas vidas entregue gratuitamente, por assim dizer, pela esfera pública, toda a matéria-prima para suas emoções mais profundas, para amor e ódio, alegria e tristeza, mas também todas as suas sensações e emoções — acompanhadas, embora pudessem ser, de pobreza, fome, morte, caos e perigo.

A Alemanha se tornou uma nação de consumidores passivos de eventos externos, uma população incapaz de encontrar um propósito interno ou dar sentido às suas vidas. Haffner explicou:

Agora que essas entregas cessaram de repente, as pessoas ficaram desamparadas, empobrecidas, roubadas e decepcionadas. Elas nunca aprenderam a viver de dentro de si mesmas, como tornar uma vida privada comum ótima, bonita e valiosa, como aproveitá-la e torná-la interessante. Então, elas consideraram o fim da tensão política e o retorno da liberdade privada não como um presente, mas como uma privação.

Os alemães estavam ansiosos por uma ação externa para preencher um vazio interno. Os alemães na década de 1920, relatou Haffner, “estavam entediados… eles esperavam ansiosamente pela primeira perturbação, o primeiro revés ou incidente, para que pudessem deixar esse período de paz para trás e partir para alguma nova aventura coletiva”.

A percepção de Haffner era que aqueles que resistiam ao nazismo poderiam encontrar sentido criando uma vida rica, independente de excitação externa, enquanto aqueles que não tinham essa força de espírito se tornavam nazistas.

Até Hitler chegar ao poder, Haffner estava confiante de que as restrições da civilização alemã se manteriam:

Nós nos sentíamos mais ou menos seguros de que [os nazistas] seriam mantidos sob controle. Nós nos movíamos entre eles com a mesma indiferença com que os visitantes de um zoológico moderno sem jaulas passam pelos animais de rapina, confiantes de que suas valas e sebes foram cuidadosamente calculadas. Os animais, por sua vez, provavelmente retribuíam esse sentimento. Com profundo ódio, eles cunharam a palavra “sistema” para a força impalpável que os mantinha dentro de limites enquanto os deixava em liberdade. Por enquanto, pelo menos, eles eram mantidos dentro de limites.

Na América de hoje, ouvimos as mesmas críticas contra o “sistema”, e a Constituição dos EUA é atacada como uma das “barreiras ao progresso”.

Na América de hoje, a Gallup descobriu que 85 por cento dos trabalhadores não estão engajados no trabalho. Assim, muitas pessoas não encontram sentido em uma atividade que consome metade do seu dia acordado. Esse tédio é aliviado quando os indivíduos habitualmente verificam seus telefones uma média de 144 vezes ao longo do dia. As pessoas estão ansiosas para preencher um vazio interior.

Haffner alertou: “Decisões que influenciam o curso da história surgem das experiências individuais de milhares ou milhões de indivíduos”. Se Haffner, um estudioso apaixonado por história, estivesse vivo hoje, ele agitaria uma bandeira amarela. A falta de propósito e a covardia podem nos levar a aceitar o ruinoso chamado da sereia totalitária.


Fonte: American Institute for Economic Research

Barry Brownstein é professor emérito de economia e liderança na Universidade de Baltimore. É autor de The Inner-Work of Leadership, e seus ensaios foram publicados em periódicos como Foundation for Economic Education e Intellectual Takeout.

Tradução: IoP


Para saber mais

Haffner, Sebastian. Desafiando Hitler: Uma Memória. Editora Companhia das Letras, 2003. Uma análise aprofundada da ascensão de Hitler e das condições que permitiram seu poder.

Mises, Ludwig von. Sobre Dinheiro e Inflação. Editora Instituto Mises Brasil, 2015. Uma obra essencial para entender a teoria econômica por trás da hiperinflação e seus impactos.

Arendt, Hannah. Origens do Totalitarismo. Editora Companhia das Letras, 2018. Explora as raízes e os mecanismos do totalitarismo, oferecendo uma perspectiva crítica sobre regimes autoritários.

Kershaw, Ian. Hitler: 1889-1936: Hubris. Editora Objetiva, 2000. Uma biografia abrangente de Adolf Hitler, cobrindo suas origens e ascensão ao poder.

Burleigh, Michael. A Terceira Reich: Uma História. Editora Record, 2001. Um relato detalhado sobre o regime nazista e sua influência na história moderna.

George Washington e a virtude cívica

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Em 1788, durante o processo de ratificação da Constituição pelos estados, George Washington escreveu cartas ao Marquês de Lafayette. Nelas, Washington destacou os elementos essenciais para evitar que a nova república americana se degenerasse em uma “forma despótica ou opressiva”: poderes delegados limitados ao governo, freios e contrapesos, e “virtude no corpo do Povo”.

Washington enfatizava frequentemente a importância da “virtude no corpo do Povo”, que muitas vezes é negligenciada. Ele alertava que “a corrupção da moral, a prodigalidade dos costumes e a indiferença pela preservação dos direitos naturais e inalienáveis ​​da humanidade” levariam à “tirania”.

Para Washington, “a felicidade da sociedade por uma longa sucessão de eras vindouras” dependia da ratificação da Constituição. Ele acreditava que isso só seria possível através do “progresso em direção à retidão no pensamento”. Para ele, retidão significava “correção de princípio ou conduta; virtude moral”, evidenciando a importância que ele dava aos princípios e virtudes para sustentar a liberdade.

George Washington era um defensor fervoroso da liberdade. Exemplos históricos infinitos nos alertam sobre as consequências de uma sociedade sem freios e contrapesos e limites ao poder do governo. O que acontece com um país sem constituição ou compromisso profundo em coibir o uso do poder? Na ausência desses limites, a virtude diminui, e é fácil para as pessoas se tornarem servas da tirania. As consequências merecem um exame atento, mesmo aquelas que derivam de uma ideologia voltada para a destruição da vida humana.

O filme **The Zone of Interest**, premiado recentemente, trouxe à atenção do público a vida do comandante de Auschwitz, Rudolf Höss, e sua família. A Comissão Polonesa de Crimes de Guerra permitiu que Höss escrevesse suas memórias antes de sua execução em 1947. Höss sabia que não receberia clemência e, em suas escritas, assumiu alguma responsabilidade, não tentando negar seus crimes, ao contrário de outros nazistas.

Em suas memórias, Höss reconheceu que “a história me marcará como o maior assassino em massa de todos os tempos”. Ele e sua família viviam fora dos muros do campo de concentração. Aparentemente alheios aos horrores do outro lado do muro, para a esposa de Höss, Hedwig, sua casa era o “paraíso” e onde ela “queria viver e morrer”. Sua filha lembrava de Höss como uma “pessoa absolutamente maravilhosa”.

Em 1941, Himmler atribuiu a Höss a tarefa de executar a “Solução Final” de Hitler, afirmando que “os judeus são os eternos inimigos do povo alemão e devem ser exterminados”. Höss descreveu sua mentalidade de servo da tirania: “Eu tinha recebido uma ordem, eu tinha que cumpri-la. Eu não podia me permitir formar uma opinião sobre se esse extermínio em massa dos judeus era necessário ou não.”

Höss frequentemente explicava que a fidelidade a Hitler e ao Partido superava qualquer senso de moralidade ou princípios. Ele escreveu repetidamente sobre sua obediência e certeza: “Toda ordem tinha que ser considerada sagrada e mesmo a mais difícil e difícil tinha que ser executada sem qualquer hesitação.”

Soldados perturbados frequentemente pediam garantias a ele, questionando: “O que temos que fazer aqui [em Auschwitz] é necessário? É necessário que centenas de milhares de mulheres e crianças sejam aniquiladas?” Höss respondia que “foi ordem de Hitler” e “necessário” para “libertar a Alemanha… do nosso inimigo mais difícil”.

“Vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas perderam o medo e as melhores perderam a esperança”

Hannah Arendt

Höss via-se como um assassino “humano”, preferindo o gás aos pelotões de fuzilamento: “Eu sempre tive horror da morte por pelotões de fuzilamento, especialmente quando pensava no grande número de mulheres e crianças que teriam que ser mortas… Agora eu estava tranquilo. Todos nós fomos salvos desses banhos de sangue, e as vítimas seriam poupadas até o último momento.” Ele referia-se aos pelotões de fuzilamento das unidades móveis da SS que mataram milhões na Ucrânia e em outros lugares da Europa Oriental. Entre os soldados da SS, alguns “enlouqueceram” por participar desses banhos de sangue.

Höss observava frequentemente judeus sendo carregados para as câmaras de gás e lembrava como mães aterrorizadas falavam “amorosamente” com seus filhos. Ele lembrou: “Uma vez, uma mulher com quatro filhos, todos segurando uns aos outros pela mão… se aproximou muito de mim e sussurrou, apontando para seus quatro filhos: ‘Como você pode assassinar essas crianças lindas e queridas? Você não tem coração?’”

Tentando obter simpatia por si mesmo, Höss escreveu que “tinha um coração” e explicou que “tinha que parecer frio e sem coração durante esses eventos que destroem o coração de qualquer um que tivesse qualquer tipo de sentimento humano. Eu não conseguia nem me virar quando uma profunda emoção humana surgia dentro de mim.”

Os prisioneiros “sortudos” que não foram gaseados foram designados para realizar trabalhos forçados em fábricas de armamento. Höss lembrou-se de testemunhar durante os ataques de bombardeio dos Aliados “como os prisioneiros até ajudaram os guardas feridos… Não havia mais guardas ou prisioneiros; eles eram apenas pessoas tentando escapar da chuva de bombas.” Apesar de testemunhar a humanidade dos prisioneiros famintos, Höss continuou a seguir ordens.

Após a guerra, Höss escreveu que ainda era um fervoroso nacional-socialista, mas admitiu que a liderança nazista “ao usar propaganda extremamente eficaz e por meio do uso de terror ilimitado, tornou uma nação inteira submissa a tal ponto que, com algumas exceções, o povo seguiu em todos os sentidos, onde quer que fosse levado, sem críticas e sem vontade própria.”

Höss não estava sem vontade; antes, ele havia se lembrado de sua escolha de entregar sua vontade às “ordens”. Quantos outros escolheram não exercer sua vontade?

Em sua carta final à família, Höss escreve que “é trágico” que ele “por natureza gentil, bem-humorado e muito prestativo, tenha se tornado o maior destruidor de seres humanos que cumpriu todas as ordens para exterminar pessoas, não importa o que acontecesse.”

Consistente com os arrependimentos universais relatados por aqueles com pouco tempo de vida, Höss lamentou “profunda e dolorosamente” não ter passado mais tempo com sua esposa e filhos por causa de seu “dever”.

Finalmente, houve algum arrependimento em seus últimos dias: “Posso ver hoje claramente, severamente e amargamente para mim, que toda a ideologia sobre o mundo na qual eu acreditava tão firme e inabalavelmente era baseada em premissas completamente erradas.”

Reconhecendo seus erros de obediência inabalável, mas tarde demais para ajudar aqueles que ele assassinou, ele aconselhou seu filho: “Aprenda a pensar e julgar por si mesmo, responsavelmente. Não aceite tudo sem críticas e como absolutamente verdade, tudo o que é trazido à sua atenção. Aprenda com a vida.” Ele assombrosamente disse a seu filho: “Ouça acima de tudo a voz em seu coração.” Ele reconheceu: “O maior erro da minha vida foi que eu acreditei fielmente em tudo o que veio do topo, e não ousei ter a menor dúvida sobre a verdade daquilo que me foi apresentado.”

Se você espera ler os delírios de um psicopata, as memórias de Höss irão decepcioná-lo. A leitura será muito instrutiva se você quiser ver o que acontece com um homem comum que abandona a virtude e escolhe se render a um governo com poder absoluto. Höss respondeu ao chamado de uma sociedade depravada.

Com a tríade de fundamentos de Washington para sustentar uma república apoiando-os, os servos da liberdade podem bloquear os esquemas depravados dos tiranos. Quando os poderes do governo são restringidos, aqueles dispostos a abandonar a moralidade terão um impacto limitado.

Aqui está o que me assombra. A América de hoje tem menos limites para o poder do governo — ordens executivas, lealdade partidária acima de princípios e o estado administrativo enlouqueceram.

Em tal mundo, o que o servo da tirania será capaz de fazer em um futuro não tão distante? Haverá servos da liberdade suficientes para reverter uma maré de tirania?


Fonte: American Institute for Economic Research – AIER

Barry Brownstein: professor emérito de economia e liderança na Universidade de Baltimore e autor de The Inner-Work of Leadership. Seus ensaios apareceram em publicações como Foundation for Economic Education e Intellectual Takeout.

Tradução – Instituto O Pacificador

São Tomás de Aquino e a jornada das virtudes

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São Tomás de Aquino, um dos grandes filósofos e teólogos da história, desempenhou um papel importante na articulação e compreensão das virtudes, como referência do protagonismo para o bem. Em sua vida e obra, especialmente a monumental “Suma Teológica”, São Tomás nos apresenta a sua busca incansável pela verdade e pela compreensão profunda das virtudes, em um guia para orientar a vida humana.

A filosofia de São Tomás de Aquino baseou-se no realismo aristotélico, em que sua maior inspiração foi o filósofo grego Aristóteles. Suas obras formularam um novo pensamento filosófico cristão, que destacavam a razão e a vontade humana.

A vida de São Tomás de Aquino

Tomás de Aquino nasceu em 1225 no Castelo de Roccasecca, no Reino da Sicília, que hoje faz parte da Itália. Filho de nobres, Tomás foi destinado desde cedo a uma vida religiosa. Aos cinco anos, foi enviado ao mosteiro de Monte Cassino para ser educado pelos monges beneditinos. Posteriormente, ele estudou na Universidade de Nápoles, onde teve seu primeiro contato com a obra de Aristóteles, que influenciaria profundamente sua filosofia.

Apesar da resistência inicial de sua família, que desejava vê-lo ocupar uma posição elevada na Igreja, Tomás ingressou na Ordem dos Pregadores, os Dominicanos, atraído pela vida de pobreza e dedicação ao estudo. Ele continuou seus estudos em Paris e Colônia, onde foi aluno de Alberto Magno, um dos maiores filósofos e teólogos da época. Sob a tutela de Alberto, Tomás desenvolveu seu pensamento e começou a escrever suas primeiras obras.

A produção da Suma Teológica

A “Suma Teológica” é a obra-prima de São Tomás de Aquino, escrita entre 1265 e 1274. Este extenso compêndio teológico foi concebido como um guia para a formação dos estudantes de teologia, mas seu impacto transcendeu em muito esse objetivo inicial. Dividida em três partes, a “Suma Teológica” aborda a existência de Deus, a moral cristã e a pessoa e a obra de Cristo.

Um dos aspectos centrais da “Suma Teológica” é a sua exploração das virtudes. Tomás de Aquino integrou a filosofia aristotélica com a doutrina cristã, apresentando uma visão abrangente e sistemática das virtudes. Ele classificou as virtudes em teologais (fé, esperança e caridade) e cardeais (prudência, justiça, fortaleza e temperança), estabelecendo uma estrutura que influenciaria a ética cristã por séculos.

A relação de São Tomás com as virtudes

Para São Tomás de Aquino, as virtudes são hábitos bons que aperfeiçoam as faculdades humanas e orientam o homem para o bem. Ele considerava que as virtudes teologais são infundidas por Deus na alma humana e orientam o homem diretamente para Ele, enquanto as virtudes cardeais são adquiridas pelo esforço humano e regulam as ações e paixões de acordo com a razão.

Fé, esperança e caridade: As virtudes teologais são a base da vida cristã. A fé permite ao homem acreditar nas verdades reveladas por Deus; a esperança orienta o homem para a confiança nas promessas divinas; e a caridade é o amor a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

Prudência, justiça, fortaleza e temperança: As virtudes cardeais são fundamentais para a vida moral. A prudência é a virtude que permite ao homem discernir o bem e os meios adequados para alcançá-lo; a justiça consiste em dar a cada um o que lhe é devido; a fortaleza permite enfrentar os desafios e sofrimentos com coragem; e a temperança modera os desejos e prazeres, mantendo o equilíbrio e a moderação.

O Impacto das virtudes na prática cristã

São Tomás de Aquino mostrou que as virtudes são essenciais para alcançar a felicidade e a perfeição humana. Ele argumentou que a prática das virtudes conduz ao florescimento humano e à realização do bem comum. Além disso, as virtudes teologais, sendo dons divinos, elevam o homem a uma participação na vida divina, transformando a vida moral em uma jornada espiritual.

A influência da “Suma Teológica” e das ideias de São Tomás de Aquino sobre as virtudes é imensa. Sua síntese da filosofia grega e da doutrina cristã estabeleceu uma base sólida para a teologia moral, que continua a orientar a Igreja Católica e muitos outros campos da ética cristã.

Os ensinamentos de São Tomás de Aquino na prática

A aplicação dos fundamentos de São Tomás de Aquino, em nossa vida, pode ser observado em várias figuras e iniciativas que promovem as virtudes e a busca pela verdade em ações diárias.

Para ilustrar a obra de Sâo Tomás, destacamos o trabalho de Viktor Frankl, psiquiatra e sobrevivente do Holocausto, cuja obra “Em Busca de Sentido” reflete a importância da esperança e da resiliência (fortaleza) diante do sofrimento. Ele exemplifica como a virtude da esperança pode dar sentido e direção à vida, mesmo nas circunstâncias mais adversas.

O indivíduo que se eleva acima de si mesmo avança para a maturidade. Sim, o verdadeiro produto do sofrimento é, afinal de contas, um processo de maturidade.

Viktor Frankl, nasceu em Viena em 1905, se tornou um renomado psiquiatra e neurologista, fundador da Logoterapia, uma abordagem terapêutica centrada na busca de sentido. Durante a Segunda Guerra Mundial, Frankl foi deportado para campos de concentração nazistas, incluindo Auschwitz e Dachau, onde perdeu a maior parte de sua família. Enfrentando condições desumanas e sofrimento extremo, Viktor manteve-se firme na convicção de que mesmo nas circunstâncias mais adversas, a vida pode ter significado. Essa crença fundamental, refletindo a virtude da esperança, foi essencial para a sua sobrevivência e resistência.

A virtude da fortaleza desempenhou um papel central na trajetória de Frankl durante o Holocausto. Ele enfrentou a brutalidade e a desumanização dos campos de concentração com uma resiliência extraordinária. Frankl observou que os prisioneiros que encontravam um propósito ou significado em suas vidas, mesmo que em atitudes simples como ajudar os outros, tinham uma maior chance de sobreviver. Ele próprio se comprometeu a cuidar dos companheiros de prisão, oferecendo-lhes apoio psicológico e esperança. Sua fortaleza não foi apenas física, mas mental e espiritual, permitindo-lhe suportar a dor e o sofrimento com dignidade.

Após a guerra, Viktor Frankl transformou suas experiências e observações em um legado poderoso através de sua obra “Em Busca de Sentido”. Para ele a busca pelo significado é a motivação primária do ser humano, uma visão profundamente enraizada nas virtudes de esperança, fortaleza e caridade. Frankl ensinou que, ao encontrar um propósito, as pessoas podem superar o desespero e a adversidade. Sua vida e obra exemplificam como as virtudes podem não apenas ajudar a sobreviver a momentos de extrema dor, mas também a florescer e a contribuir significativamente para a humanidade, inspirando gerações a encontrar sentido e resiliência em suas próprias vidas.

Sofrimento, virtudes e maturidade

Viktor Frankl, influenciado pela filosofia existencial e pela psicologia humanista, desenvolveu sua abordagem terapêutica, conhecida como Logoterapia, que enfatiza a busca por sentido na vida como um dos principais motores do ser humano. Para Frankl, a maturidade envolve não apenas o desenvolvimento pessoal, mas também a capacidade de encontrar significado e propósito mesmo diante do sofrimento.

Essa perspectiva pode ser relacionada ao pensamento de São Tomás de Aquino que argumenta que as virtudes são hábitos bons que aperfeiçoam as faculdades humanas e orientam o homem para o bem. Em sua visão, o sofrimento pode ser visto como uma oportunidade para o crescimento moral e espiritual, pois desafia o indivíduo a exercitar a fortaleza, a paciência e a esperança, virtudes que são essenciais para enfrentar adversidades com dignidade e resiliência.

O exemplo arrasta

O exemplo é uma das ferramentas mais poderosas na formação do caráter e na inculcação das virtudes. Quando observamos figuras exemplares, especialmente na infância e adolescência, somos inspirados a imitar suas qualidades e comportamentos. Figuras como São Tomás de Aquino e Viktor Frankl são referências concretas e inspiradoras que podem guiar pessoas a adotar virtudes morais.

São Tomás de Aquino dedicou sua vida ao estudo e à explicação das verdades da fé cristã. Sua obra, especialmente a “Suma Teológica”, permanece um marco na compreensão das virtudes e seu papel na vida humana. Integrando razão e fé, Tomás de Aquino demonstrou que as virtudes não são apenas princípios abstratos, mas realidades vivas que moldam e elevam a existência humana. Sua visão profunda e integradora continua a inspirar e guiar aqueles que buscam viver de acordo com os princípios da moral cristã e alcançar a verdadeira felicidade.

De maneira semelhante, Viktor Frankl, com sua trajetória de vida marcada pela resiliência e busca de sentido, ilustra como as virtudes podem ser uma fonte de força e direção, mesmo nas circunstâncias mais adversas. Observando as vidas e ensinamentos de indivíduos como São Tomás de Aquino e Viktor Frankl, somos lembrados de que a prática das virtudes não só eleva o indivíduo, mas também inspira os outros a seguir um caminho de integridade e propósito.

Para saber mais

  1. São Tomás de Aquino. Suma Teológica – Principal obra teológica de Tomás, contendo suas reflexões sobre as virtudes.
  2. Etienne Gilson. O Tomismo: Introdução à Filosofia de São Tomás de Aquino – Uma análise acessível e compreensiva do pensamento de Tomás.
  3. Josef Pieper. As Virtudes Fundamentais – Exploração das virtudes cardeais à luz da filosofia de Tomás de Aquino.
  4. Ralph McInerny. A Suma Teológica de Tomás de Aquino: Uma Visão Geral – Introdução clara e concisa à obra magna de Tomás.
  5. John Finnis. Aquinas: Moral, Political, and Legal Theory – Estudo da ética e da filosofia política de Tomás de Aquino.

O Gato de Botas 2 e a transformação pelas virtudes

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Foto: Dreamworks Animation - Divulgação

Recentemente resolvi assistir ao filme “O Gato de Botas 2 – O último pedido” com minha filha. Confesso que não estava muito animado com o programa, mas à medida que a história foi se desenrolando, percebi que estava diante de uma preciosidade, tanto que o filme foi indicado ao Oscar 2023, concorrendo ao título de melhor animação.

O segundo filme do personagem peludo parece ter uma maturidade que vai além da história do primeiro, mais cômico e infantil. A edição 2 do filme traz uma história de transformação profunda, que ressoa com os desafios e aspirações de muitos de nós. A sequência traz o personagem do Gato de Botas, um herói felino que vive sem restrições, perseguindo glória e fama com destemor e orgulho. No entanto, a narrativa toma um rumo inesperado quando ele esgota suas “sete vidas”, sendo obrigado a encarar a mortalidade de forma inédita. Neste evento dramático a história passou a ser um catalisador para uma reflexão sobre as virtudes e o verdadeiro significado de viver com integridade.

Com a perda de suas “vidas”, o Gato de Botas é forçado a reavaliar seu comportamento imprudente e arrogante. Inicialmente, ele exibe bravura desenfreada, confiante em sua invulnerabilidade, parecendo não acreditar que estava diante dos fatos da vida. Mas, conforme sua mortalidade se torna inescapável, ele é confrontado com a necessidade da prudênciaa virtude de discernir o bem verdadeiro e escolher ações apropriadas. Aristóteles destacava a prudência como essencial para a vida ética, uma sabedoria prática que o Gato de Botas começa a incorporar, à duras penas, ao entender o valor da cautela e da reflexão em suas escolhas, algo que antes ignorava em sua busca por aventuras e notoriedade.

À medida que a história se desenrola, a transformação do Gato de Botas também nos ensina sobre a coragem em um sentido mais profundo. O personagem parte de uma confusa temeridade, uma busca impensada pelo perigo, sem uma reflexão sobre as consequências de seus atos. Contudo, a perda e a iminência da morte revelam uma nova dimensão da coragem: enfrentar o medo e os desafios com um propósito maior, que vai além de suas aspirações. Isso tudo se torna muito claro ao fim da jornada quando o personagem está diante de uma das escolhas mais difíceis de sua vida. Para não perder a graça, dando spoiler sobre o que irá acontecer, posso adiantar que o Gato de Botas escolhe  lutar por algo maior do que ele mesmo. Na jornada o felino é levado a refletir sobre o sentido da vida, percebendo que o que lhe resta é a coragem de enfrentar seus medos e desafios mais profundos. Neste ponto lembrei imediatamente que esta atitude reflete a famosa frase do General George S. Patton: “Coragem é medo segurando um minuto a mais.” A verdadeira coragem, assim demonstrada, não é a ausência de medo, mas a determinação de agir corretamente, mesmo quando o medo é paralisante.

No filme do diretor Joel Crawford, a temperança também é apresentada como uma das virtudes em que o Gato de Botas é confrontado ao longo de sua jornada. Inicialmente levado por desejos e impulsos, ele vive sem considerar os limites ou a necessidade de autocontrole. Sua transformação o força a adotar uma postura de moderação, aprendendo a equilibrar seus impulsos com a razão. Esta virtude, segundo Aristóteles, é vital para alcançar a harmonia interior e o equilíbrio nas ações, algo que o Gato de Botas demonstra ao ajustar seu comportamento e adotar um estilo de vida mais equilibrado e consciente.

A narrativa também oferece uma reflexão sobre a justiça. No começo, o Gato de Botas é centrado em si mesmo, negligenciando as implicações de suas ações sobre os outros, com certa prepotência. Sua nova perspectiva sobre a vida o leva a valorizar a justiça, não como uma ideia abstrata, mas como uma prática diária que envolve tratar os outros com respeito. O Gato aprende que a justiça muitas vezes se manifesta em atos de coragem e sacrifício, mesmo quando envolvem grandes riscos.

Além dessas virtudes, o filme destaca a amizade como um valor fundamental. A inesperada amizade do Gato de Botas com um cão revela a importância das conexões verdadeiras e da confiança mútua. Aristóteles descreve a amizade como uma das formas mais nobres de virtude, um vínculo que promove o bem-estar mútuo e a compreensão. E é exatamente este pequeno personagem canino, inicialmente sem valor e sem uma personalidade forte, que acaba por despertar no Gato o valor da lealdade e da solidariedade, elementos essenciais para qualquer vida virtuosa.

“O Gato de Botas 2” nos oferece mais do que uma aventura emocionante; é um espelho que reflete a importância das virtudes na superação dos desafios da vida. Assim como o Gato de Botas encontra um novo propósito e força através da prudência, coragem, temperança e justiça, cada um de nós pode aprender a ser um protagonista em nossa própria jornada.

Talvez as crianças não percebam tanta riqueza no filme, mas cabe a nós provocar uma reflexão nos pequenos para que compreendam os valores apresentados na história do gato e de seus amigos.

As virtudes são bússolas que orientam nossas escolhas e nos capacitam a enfrentar o pessimismo com resiliência, construindo um mundo melhor e mais humano. Elas nos mostram que, com integridade e propósito, podemos ser agentes de mudança, transformando não apenas nossas próprias vidas, mas também aqueles que amamos e que temos por bem.

Fica a dica para assistir “O Gato de Botas 2” com os nossos pequenos nas férias. Além da história, a animação em si é uma obra de arte. Garanto que o filme não vai decepcionar!

Para saber mais

  1. AristótelesÉtica a Nicômaco.
  2. Alasdair MacIntyreDepois da Virtude.
  3. Josef PieperAs Quatro Virtudes Cardeais.
  4. São Tomás de AquinoSuma Teológica.
  5. Joseph Campbell – O herói de mil faces.

Jorge Quintão – IoP

As virtudes cardeais, o Estado e seus pecados capitais

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Atualmente, quase ninguém mais fala sobre as tábuas das virtudes e dos vícios, dentre os quais estão os sete pecados capitais.  Porém, ao analisarmos ambos — virtudes e vícios –, encontramos um perfeito sumário dos fundamentos da ética burguesa e uma sólida crítica moral ao Estado moderno.

É verdade que os libertários muito raramente falam sobre virtudes e vícios, principalmente porque nós concordamos com o filósofo Lysander Spooner: vícios não são crimes, e a lei deveria cuidar apenas destes últimos.  Ao mesmo tempo, é extremamente necessário observarmos como vícios e virtudes — bem como nossa concepção sobre o que constitui uma cultura e um comportamento adequados — possuem uma forte relação com a ascensão e o declínio da liberdade em nosso mundo atual.

Permitam-me um simples, porém intrigante exemplo.  Há alguns anos, um palestrante em uma conferência realizada pelo Mises Institute estava explicando como algumas questões como assistencialismo, caridade e amparo aos pobres poderiam ser realizadas por meios voluntários — isto é, pela filantropia.  Sua explicação foi brilhante, só que, ao final, alguém levantou a mão.

Um aluno da Índia tinha uma pergunta.  E se — perguntou ele — uma pessoa vive em uma sociedade em que a religião diz que a condição de um indivíduo é ditada por Deus, e que, sendo assim, seria um pecado tentar modificá-la?  Os pobres, segundo essa visão, supostamente devem continuar sendo pobres, e ajudá-los seria uma violação dos desígnios de Deus.  Com efeito, uma pessoa caridosa estaria cometendo um crime contra Deus.

O palestrante ficou ali parado, em estupefato silêncio.  Todos os outros presentes olharam boquiabertos para o autor da pergunta.  Todos nós ficamos perplexos ao sermos confrontados com uma realidade que é frequentemente por nós ignorada: a ética que fortalece a nossa cultura, algo que muitas vezes tomamos como um fato consumado, é essencial para o funcionamento daquilo que chamamos de “boa sociedade”, baseada na dignidade do indivíduo, bem como para a possibilidade do progresso, da liberdade e da prosperidade.

E uma economia produtiva, baseada no livre mercado e sustentada por um forte senso de responsabilidade individual e por um compromisso moral para com o respeito aos direitos de propriedade, é justamente o arranjo que pode permitir progresso, liberdade e prosperidade.  No entanto, esse arranjo possui um grande inimigo: o Estado intervencionista.  É ele quem tributa, regulamenta e inflaciona a quantidade de dinheiro na economia, distorcendo desta forma um sistema que caso contrário iria funcionar harmoniosamente, produtivamente e para o grande benefício de todos, gerando riqueza, segurança e paz, e criando as condições necessárias para o florescimento de tudo aquilo que chamamos de civilização.

O nome que Karl Marx deu a esse sistema foi ‘capitalismo’, pois ele acreditava que o livre mercado era o sistema que fortalecia e dava plenos poderes aos proprietários do capital — a burguesia — em detrimento dos trabalhadores e camponeses da classe proletária.

O nome ‘capitalismo’ é um tanto capcioso porque a livre iniciativa não é, de fato, um sistema econômico organizado para beneficiar unicamente as classes detentoras do capital.  Ainda assim, os defensores do livre mercado não se mostram desconfortáveis em utilizar o termo capitalismo precisamente porque a propriedade do capital e sua acumulação é de fato a força-motriz que impulsiona o funcionamento de um produtivo livre mercado.  Como explicou Mises, o capitalismo serve aos interesses materiais e ao proveito próprio de todas as pessoas, inclusive os não-capitalistas — os proletários.  Em uma sociedade capitalista, os meios de produção em mãos privadas servem exclusivamente ao mercado.  Quem se beneficia fisicamente das fábricas e indústrias são todas aquelas pessoas que compram seus produtos.  Em conjunto com os incentivos gerados pelo sistema de lucros e prejuízos, bem como toda a liberdade de concorrência que tal sistema implica, a existência da propriedade privada dos meios de produção garante uma sempre crescente oferta de bens e serviços para todos.

Portanto, embora esse sistema funcione não apenas para o benefício dos capitalistas, é certamente verdade que a propriedade privada dos meios de produção, bem como a criação dessa classe de cidadãos empreendedores, é algo crucial para que todos nós desfrutemos todas as glórias de uma economia produtiva.

Em conjunto com a criação desta classe vem também a formação daquilo que se convencionou chamar de ‘ética burguesa’ — um termo utilizado sarcasticamente para escarnecer o comportamento habitual da classe empreendedorial.  Marxistas empedernidos ainda utilizam essa frase como se ela descrevesse a classe exploradora.  Mais comumente, ela é utilizada por intelectuais para identificar um tipo de comportamento monótono e previsível que, na concepção deles, não mostra um devido respeito por coisas vanguardistas e progressistas.

Normalmente ela é utilizada para descrever aquelas pessoas que possuem afeições à sua comunidade (ou à pequena cidade em que nasceu), à religião e à família, e que se mostram um tanto avessas a modismos e comportamentos progressistas que ultrapassam as normas culturais comumente aceitas.  Porém, aqueles que utilizam esse termo pejorativamente não costumam ser gratos ao fato de que foi justamente a ética burguesa quem tornou possível o estilo de vida de todas as classes, inclusive da classe intelectual.

A burguesia, na acepção original do termo, sempre foi formada por uma classe de poupadores, de pessoas que honravam suas palavras e respeitavam seus contratos, de pessoas que tinham uma profunda ligação à família.  Essa classe de pessoas se importava mais com o bem-estar de seus filhos, com o trabalho e com a produtividade do que com o lazer e o deleite pessoal.

As virtudes da burguesia são as tradicionais virtudes da prudência, da justiça, da temperança e da fortaleza (ou força).  Cada uma delas possui um componente econômico — vários componentes econômicos, na verdade.

A prudência dá sustento à instituição da poupança, ao desejo de adquirir uma boa educação para se preparar para o futuro, e à esperança de poder legar uma herança aos nossos filhos.

Com a justiça vem o desejo de honrar os contratos, de dizer a verdade nos negócios e de fornecer uma compensação para aqueles que foram injuriados.

Com a temperança vem o desejo de se controlar e se restringir a si próprio, de trabalhar antes de folgar, o que mostra que a prosperidade e a liberdade são, em última instância, sustentadas por uma disciplina interna.

Com a fortaleza vem a coragem e o impulso empreendedor de se deixar de lado o temor desmedido e de seguir adiante quando confrontado pelas incertezas da vida. 

Essas virtudes são os fundamentos tradicionais da burguesia, bem como a base das grandes civilizações.

Porém, a imagem invertida destas virtudes mostra como o modo virtuoso do comportamento humano encontra seu oposto nas políticas públicas empregadas pelo Estado moderno.  O Estado se posiciona diretamente contra a ética burguesa, sobrepujando-a e fazendo com que seu declínio permita ao Estado se expandir em detrimento tanto da liberdade quanto da virtude.

Na tradição religiosa ocidental, os sete pecados capitais não são os únicos pecados que existem.  Eles são chamados de capitais porque, no ensinamento tradicional, eles resultam na morte espiritual. 

Analisemos cada um deles:

Vaidade (ou soberba)

Também chamada de orgulho, ou, mais exatamente, de um excessivo e desproporcional orgulho por si próprio.  Sabemos o que significa uma pessoa ser excessivamente vaidosa ou orgulhosa.  Significa que ela coloca seus interesses antes dos de todos os outros, mesmo que, ao fazer isso, prejudique a todos.  Trata-se da superestimação de uma pessoa por si própria e da importância de que é obter seus interesses e “direitos” à custa de todos.

Na esfera pública, podemos pensar nos vários grupos organizados que acreditam piamente que suas demandas e interesses são mais importantes que os de todo o resto da população.  Com efeito, esse traço de soberba caracteriza perfeitamente essa pavorosa moda de se sair exigindo todos os tipos de novos “direitos”.  Temos, por exemplo, lobistas que se julgam genuínos representantes de todas as várias categorias sexuais, raciais e de deficientes, e que se acham por isso no pleno direito de violar a propriedade e a liberdade de todos para o seu próprio benefício.  Eles estão plenamente convictos, por causa de sua própria vaidade, de que têm o direito de ter privilégios especiais em detrimento dos genuínos direitos de todo o resto.  O estado de direito e sua aplicação igualitária para todos se torna assim completamente distorcido pelas demandas de alguns poucos contra a ampla maioria.

Esse dificilmente é o caminho para uma paz social de longo prazo.  Considere a questão da discriminação (racial, sexual, religiosa, de gênero ou de inaptidão física) no emprego.  Por que uma pessoa iria querer trabalhar para um empregador que realmente não quer contratá-la?  Em um mercado competitivo, empregadores têm a liberdade de discriminar, mas os custos dessa prática serão arcados totalmente por eles, pois seu sucesso ou fracasso dependem totalmente do julgamento dos consumidores.

Como empregadores estão em constante concorrência entre si, todos podem encontrar um lugar para si próprio dentro dessa vasta rede que é a divisão do trabalho.  O orgulho que leva ao curto-circuito desse processo não é do interesse de longo prazo da sociedade.

O mesmo raciocínio é válido quando ampliado para o conceito de nações.  Não há nada de errado em se ter um orgulho natural e normal de seu país.  Porém, ser arrogante e sobrestimar os méritos de um determinado país pode gerar péssimos efeitos econômicos.  Dentre estes temos o protecionismo, o mercantilismo e o nacionalismo, o que gera beligerância nas relações internacionais.

Se, por exemplo, os cidadãos de um país estão plenamente convencidos de que os produtos fabricados dentro de suas fronteiras são bons (pois “foram feitos por nós!”), então qual o motivo de se querer punir qualquer estrangeiro que tente nos vender seus produtos?  Isso é arrogância, presunção, orgulho, soberba, vaidade.  Além disso, ao se adotar este protecionismo, estamos nos prejudicando a nós próprios, pois estamos nos obrigando a pagar preços mais altos por produtos de menor qualidade — algo especialmente cruel para os mais pobres.

Trata-se de um arranjo insustentável no longo prazo.  Qualquer indústria que seja protegida da concorrência se torna cada vez menos eficiente.  O país que adota esse tipo de mercantilismo pode chegar ao extremo de levar à total ineficiência todo o seu parque industrial, suprimindo novas linhas de produção que seriam eficientes caso operassem sob concorrência e tivessem acesso a maquinário importado a custo baixo.

Por fim, a vaidade na arena pública pode resultar em uma total abolição da inteligência crítica.  Ao se repetidamente afirmar que se vive em um país maravilhoso e grandioso, questões genuinamente importantes como tributação, protecionismo e políticas regulamentais, e seus consequentes efeitos sobre a liberdade das pessoas, passam a ser ignoradas por todos, pois absorveu-se a ideia de que criticar o governo e suas medidas é algo antipatriótico, e que quem o faz está sendo contra o próprio país e contra todos que ali vivem.

Ira

A civilização ocidental, ao longo de 2000 anos, considerou a ira como um vício grave, pois leva à destruição em vez da paz e da produtividade.  Daí surgiu a instituição dos tribunais no âmbito doméstico e da diplomacia no âmbito internacional.

Porém, dentro de nossos próprios países, o tabu contra a ira já desapareceu por completo nas questões públicas, e as medidas raivosas do Estado são tratadas com absoluta normalidade pela grande maioria da população.  Pessoas que não pagam de impostos aquela quantidade que o próprio Estado estipulou ser a correta são publicamente perseguidas, execradas, encarceradas e ameaçadas de morte, e suas propriedades são confiscadas e furiosamente redistribuídas a terceiros — ou ficam para os próprios membros da burocracia.

Essa institucionalização da fúria estatal contra os súditos que não cumprem sua “obrigação” de sustentá-la — bem como a entusiasmada aceitação dessa postura estatal por boa parte da população — possui consequências culturais devastadoras.  Não apenas estimula a inveja (que será analisada abaixo), como também institucionaliza um método legal para canalizar toda a ira gerada pela inveja.

Quando o governo se enfurece contra uma determinada classe de indivíduos “insolentes” que não aceitam acatar todos os seus ditames, ele despeja toda a sua ira sobre eles, e sempre com o apoio das classes bem pensantes.  Qual a lição que o resto da população tira de tudo isso?  Tremo só de pensar.

Inveja

Trata-se de uma palavra que raramente se ouve hoje em dia.  Inveja não é a mesma coisa que ciúme.  O ciúme é meramente um desejo de usufruir a mesma propriedade e status de uma outra pessoa.  Já a inveja significa o desejo de se prejudicar alguém unicamente porque esse alguém possui alguma qualidade, virtude ou bem que você não tem.  É o desejo de destruir o sucesso ou a felicidade de outra pessoa.

No mundo atual, vemos reiteradas cantilenas raivosas contra os ricos, seguidas de irados apelos para que o governo aumente a tributação sobre eles, confiscando assim boa parte daquilo que conseguiram por mérito próprio e por meio de seu esforço pessoal.  Isso nada mais é do que a inveja dos incapazes sendo despejada sobre aquelas pessoas que eles, os invejosos, no íntimo sabem serem melhores do que eles próprios.  E as políticas assistencialistas e redistributivistas nada mais são do que a inveja em ação.

Algumas pessoas até mesmo dizem que o que realmente importa nas políticas de redistribuição de renda não é o Estado ajudar os pobres mas sim prejudicar os ricos.  O mesmo raciocínio se aplica para o imposto sobre a herança, o qual arrecada relativamente muito pouco, mas faz um enorme estrago sobre pretensas dinastias familiares.

Quantos discursos feitos por políticos contra empresas, contra os ricos e contra a classe empreendedorial você já ouviu?  Quantos deles são guiados puramente por esse pecado capital?  Certamente quase todos.  Além do confisco direto da renda, políticas antitruste que visam a destruir um determinado empreendimento simplesmente porque ele se tornou grande e bem sucedido também são resultado da inveja.

Intelectuais mais honestos costumam dizer que não há nada de errado com a inveja, pois, como eles corretamente concluem, a inveja fornece as bases para boa parte das modernas políticas públicas…

Ainda assim, trata-se de um pecado capital.  E um com o potencial de destruir toda uma sociedade caso sua expansão não seja completamente contida.  E em nenhum outro lugar ele é mais implacavelmente difundido e generalizado do que dentro da cultura do próprio Estado, que condena de todas as formas o sucesso empreendedorial e pessoal, e abomina o mérito e o esforço próprio.

Cem anos atrás, várias dinastias possuíam mais riqueza à sua disposição do que o governo federal.  Será que algum Estado moderno toleraria tal disparate?  Muito duvidoso.  De acordo com a mentalidade que hoje nos domina, toda riqueza que não pertença ao Estado está necessariamente à disposição de todos, podendo ser confiscada sob demanda.  Principalmente a riqueza das famílias ricas.

Avareza

O semelhante pecado de cobiçar aquilo que pertence a outra pessoa, querendo se apropriar daquilo através de qualquer meio possível, também é algo socialmente pernicioso.  Por meio da tributação e da redistribuição, o Estado está efetivamente abençoando o pecado da avareza.

No entanto, convém deixar algo bem claro.  Cobiçar algo não é o mesmo que um inocente desejo de melhorar a própria condição de vida.  Este último representa um bom impulso, algo que motiva as pessoas a serem bem sucedidas na vida.  A avareza é diferente porque ela não dá a mínima para os meios que serão utilizados para se alcançar os objetivos estabelecidos.

Em vez de trocas produtivas, a avareza recorre ao roubo — seja o roubo feito individualmente, seja o roubo público que utiliza o governo.  Vemos a avareza, por exemplo, em todas as políticas governamentais que visam a socorrer pessoas cujos investimentos ou empreendimentos deram errado, e as quais clamam para que o governo intervenha para lhes socorrer.  Vemos também no caso de funcionários públicos que exigem, sempre por meios chantagistas, que o governo aumente seus proventos. 

Nesses casos, o desejo por dinheiro sobrepuja todas as considerações morais a respeito de como exatamente esse dinheiro deve ser adquirido.  E quanto mais o Estado aquiesce, isto é, quando mais o Estado cede e alimenta o pecado da avareza, mais as pessoas se tornam avarentas, e mais a ética burguesa cai em desuso.

O Estado moderno não é capaz de nada sem a sua avareza.  Ele mantém seu olhar vigilante constantemente fixado em nossas liberdades, em nossa privacidade, em nossa riqueza e em nossa independência, desejando suprimir todas elas utilizando qualquer meio possível.  Sob o Estado avarento, a liberdade está em constante declínio, a fatia da riqueza sujeita à tributação está sempre aumentando, e a capacidade de indivíduos e instituições prosperarem fora da alçada das bênçãos do governo é cada vez mais ínfima.

Gula

Costumamos pensar em gula como algo relacionado unicamente ao ato de comer.  Porém, gula também significa um desejo excessivo por conforto, luxo, magnificência e ócio, tudo em detrimento do trabalho e da produtividade.  Funcionários públicos, por exemplo, quando exigem que o governo espolie a população para lhes fornecer uma vida confortável, principalmente por meio de aposentadorias nababescas, estão incorrendo no pecado da gula.

O mesmo pode ser dito também para grupos de interesse de idosos, quando estes demandam aumentos em seus pagamentos previdenciários.  Como a previdência nada mais é do que um fraudulento esquema de pirâmide, não há nenhum dinheiro que foi ali guardado e investido apenas para, futuramente, ser devolvido com valores corrigidos aos depositantes originais.  Todo o dinheiro hoje direcionado para a previdência social é imediatamente gasto pelo governo.  Logo, quando aposentados exigem aumentos em suas aposentadorias, eles estão na realidade querendo melhorar suas vidas à custa da atual geração de trabalhadores, cujas contribuições previdenciárias teriam de ser elevadas.  Eis aí outro exemplo do pecado capital da gula.

E ele não se restringe aos idosos e aos funcionários públicos.  Trata-se de um fenômeno também entre aqueles pobres que foram condicionados pelo Estado assistencialista a crer que têm o direito de viver bem sem a necessidade de ganhar dinheiro por conta própria.  Curiosamente, em vários países, as taxas de obesidade entre os pobres superam em muito as da burguesia.

A difusão da gulodice também aparece nos crescentes níveis de endividamento das pessoas em todo o mundo.  Tal comportamento implica o desejo de se consumir hoje sem qualquer consideração para com as consequências futuras.  O consumidor glutão não se importa em nada com o longo prazo; só se importa em saciar seu apetite hoje.

E quem estimula esse comportamento imprudente e estouvado, esse pecado capital, é justamente o banco central por meio de suas políticas de expansão monetária, de manipulação dos juros e de socorro a instituições em dificuldade, o que cria a ilusão de que não há aspectos negativos em se viver pensando apenas no presente à custa do futuro.  A inflação monetária estimula o gasto e desestimula a poupança, pois faz com que o dinheiro perca continuamente poder de compra.  A inflação institucionaliza o pecado da gula e o faz parecer algo racional.

Para um exemplo final, basta uma visita às instalações governamentais — de preferência, na capital do seu país — para ver intermináveis ostentações de gulodice: gula por dinheiro, por bens e por poder.  Do ponto de vista do Estado, ele nunca possui uma quantidade suficiente de poder, de dinheiro e de bens.  Ele só faz comer, tornando-se cada vez mais gordo.  E se você apontar para este fato, será rotulado de extremista e depois será devidamente escarnecido. 

Preguiça

A história de como o Estado assistencialista criou uma classe de pessoas preguiçosas é antiga, e raramente contestada.  A promessa de algo em troca de nada, e tudo à custa de terceiros, corrompeu não apenas os pobres, mas também os mais velhos e principalmente os jovens estudantes recém-graduados, especialmente aqueles entre 18 e 25 anos.

Entre os mais velhos, é patético ver como uma classe de pessoas preparadas, que deveria estar na vanguarda da sociedade com sua sabedoria e experiência, liderando-a rumo aos mais altos ideais, se tornou meramente uma classe de desocupados.  A coisa se torna ainda mais moralmente degradante quando os “velhos” em questão são funcionários públicos que tiveram aposentadorias precoces e privilegiadas, e se tornaram uma classe de meros viajantes, sustentados com dinheiro de impostos e com tempo de sobra em mãos.  Sejamos bem claros (e isso é válido para todos os tipos de aposentados): em uma sociedade livre, não existe algo como um ‘direito à aposentadoria’, e muito menos um direito a uma aposentadoria confortável.  Esse conceito foi inventado apenas no New Deal.  Antes dessa época, a preguiça era algo que deveria ser comprada com dinheiro próprio.  Hoje, qualquer um pode desfrutar dela por meio das tributações do Estado.

Quanto aos jovens estudantes, nosso sistema educacional (público e privado), totalmente gerido pelos burocratas do Ministério da Educação, os socializou e os condicionou a acreditar que, quanto mais credenciais e títulos uma pessoa tem, mais ela tem o direito de exigir da sociedade alguma recompensa em troca da benção que é para o mundo a sua mera existência.  Pergunte a qualquer empreendedor sério hoje que queira contratar alguém.  Ele lhe dirá que é extremamente raro encontrar algum jovem que entenda que o emprego não é uma homenagem concedida, mas sim um arranjo voluntário em que o trabalho é ofertado em troca de um salário.  Quanto maior o nível de socialização do sistema educacional de um país, mais difundido é essa mentalidade do “direito adquirido”.

O subsídio da preguiça cria um círculo vicioso.  Quanto mais o Estado recompensa o ato de não trabalhar, menos as pessoas se dão ao trabalho de adquirir meios financeiros e pessoais para serem independentes do Estado.  Os indolentes são naturalmente propensos a desenvolver dependências, que é exatamente aquilo que o Estado quer e é exatamente aquilo de que ele gosta.

Enquanto isso, considere a indolência do próprio Estado.  Não existe classe mais avessa ao risco do que a classe burocrática.  Fazer com que burocratas trabalhem é o mesmo que fazer com que porcos gordos disputem uma corrida.

Há alguns anos, um burocrata federal nos enviou um artigo, no qual ele se recusou a escrever seu nome verdadeiro.  Ele dizia:

O que leva as pessoas a trabalharem para o governo?  O que as mantém lá por toda a vida?  É simples: compensações excessivas, enormes benefícios e ótimas condições de trabalho.  É atraente para entrar e praticamente impossível de se querer sair…  O que eu perderia se saísse do governo?  Pra começar, uma semana de trabalho curta já estaria fora de qualquer perspectiva… Atualmente, posso gastar 17,4% do meu horário de trabalho em férias.  São doze semanas por ano, eternamente… Eu também poderia dar adeus aos “benefícios” extra-oficiais: por exemplo, todos os dias faço uma corridinha leve de uma hora, seguida de um banho prolongado e um almoço calmo e tranquilo.  Isso me mantém em ótima forma para usufruir minhas constantes férias.  E visitas a algum shopping durante minha hora de trabalho são sempre possíveis (pois ninguém é de ferro).  Stress?  Não tem como.  Se relaxamento prolongasse a longevidade, burocratas viveriam até os 150 anos de idade.

Entretanto, nessa área específica, talvez devêssemos ser agradecidos.  A única coisa pior do que um Estado indolente é um Estado energizado que acorda cedo todos os dias ávido para confiscar nossas liberdades.

Luxúria

Este pecado é normalmente visto como sendo apenas um problema pessoal.  Porém, vemos todo o seu potencial de destruição presente em qualquer política governamental que não considere a família como o alicerce da sociedade burguesa.  No atual cenário político, age-se como se a família fosse algo dispensável, quando na realidade ela é o baluarte essencial entre o indivíduo e o Estado.

Economistas atentos como Ludwig von Mises e Joseph Schumpeter observaram que a família é o campo de preparo para a ética do capitalismo.  É com a família que aprendemos que o roubo é algo perverso, que respeitar a propriedade alheia é algo essencial e moralmente correto, que poupar e fazer planos para o futuro é indispensável para o sucesso e que manter a nossa palavra é uma atitude respeitável.

Não é nenhuma coincidência que os marxistas desde sempre tenham tentado esmagar a instituição da família e reduzir toda a sociedade a indivíduos atomísticos incapazes de se proverem a si próprios — e que, por isso, inevitavelmente teriam de acorrer ao Estado, em vez de aos pais e à família, suplicando por ajuda.

Estes são os sete pecados capitais, e em cada exemplo — e de centenas de maneiras distintas que não mencionei aqui — as políticas governamentais estimulam esses pecados à custa da ética burguesa, que é a ética de um livre mercado, de uma sociedade produtiva, pacífica e blindada contra poderes arbitrários.

Por que atualmente pouco ouvimos falar dos sete pecados capitais?  Talvez porque nenhuma instituição é mais gulosa, avarenta, vaidosa e raivosa do que o próprio Estado.  No setor privado, as instituições criadas pelo próprio mercado corrigem esses abusos ao longo do tempo.  No Estado, como não há nenhum mecanismo de mercado para testar e coibir comportamentos antiéticos, esses pecados capitais prosperam violentamente.

Não estou de modo algum sem esperanças quanto ao futuro da burguesia.  Se houvesse um real perigo de que essa classe pudesse ser destruída, décadas de políticas estatais criadas justamente para aniquilá-la já teriam alcançado seu objetivo a esta altura.

Mesmo assim, não podemos nos tornar complacentes.  Da mesma maneira que várias batalhas políticas são reduzidas a um conflito entre culturas, raças, gêneros e sexualidade, a melhor maneira de oferecer resistência ao Estado é vivendo e praticando a ética burguesa em nossos lares, comunidades e empreendimentos.

Relembremos constantemente, portanto, as quatro grandes virtudes burguesas da prudência, da justiça, da temperança e da fortaleza; e, ao praticá-las, façamos nossa parte para construir a liberdade e a prosperidade, ainda em nossa era.  Que jamais tomemos esses alicerces culturais da nossa civilização como um fato consumado e corriqueiro.


Lew Rockwell é o chairman e CEO do Ludwig von Mises Institute, em Auburn, Alabama, editor do website LewRockwell.com , e autor dos livros Speaking of Liberty.

Fonte: Mises Brasil

A importância das virtudes para a excelência moral

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A virtude, um pilar fundamental na ética, é o que molda nossos traços de caráter e direciona nossas ações em direção ao bem e à justiça. Não se trata apenas de um conceito filosófico abstrato; a virtude é uma prática diária, refletida em nossas decisões e comportamentos. Historicamente, a virtude tem sido um guia moral, proporcionando uma base sólida para a convivência e a realização pessoal. Ao explorarmos sua origem e evolução, compreendemos não apenas sua fundamentação filosófica, mas também sua relevância prática, como exemplificado por figuras históricas e histórias contemporâneas inspiradoras.

O termo virtude deriva da palavra grega areté, que se traduz como excelência, representando a plena realização do potencial humano. Areté enfatiza a busca pelo melhor de si mesmo em todas as ações, um conceito que foi traduzido para o latim como virtus. Em português, a palavra virtude incorpora essa ideia de valor e mérito moral, destacando qualidades como a integridade e a honradez. Paralelamente, nas culturas orientais, a noção de virtude remonta ao segundo milênio antes de Cristo, onde era entendida como a capacidade de sustentar e promover a vida, refletindo uma visão holística e interconectada do potencial humano. Essa concepção de virtude se manifesta na prática através do comportamento virtuoso, que se torna tangível nas ações cotidianas de indivíduos dedicados à excelência moral.

Ética, virtude e moral são conceitos interligados, porém distintos, que abordam diferentes aspectos do comportamento humano e das normas sociais. A ética engloba os princípios universais, valores e normas que orientam as ações das pessoas, buscando determinar o que é certo e o que é errado, justo ou injusto. Ela não se limita apenas aos atos em si, mas também considera as motivações por trás desses atos e os impactos que podem ter na sociedade.

Por outro lado, a virtude refere-se às qualidades de caráter moral que são consideradas positivas e desejáveis, como coragem, honestidade, bondade, justiça e paciência. São atributos que não apenas definem o que uma pessoa faz, mas também sua disposição interior e integridade pessoal para agir de acordo com essas qualidades.

Já a moral está relacionada aos costumes, regras e normas de conduta que são aceitos dentro de uma cultura, sociedade ou grupo específico. Ela determina o que é considerado certo ou errado, bom ou mau, adequado ou inadequado dentro desse contexto particular. A moral pode variar significativamente entre diferentes culturas e ao longo do tempo histórico, refletindo os valores e as crenças predominantes em cada sociedade.

Assim, enquanto a ética fornece os fundamentos gerais para o comportamento humano, a virtude descreve as qualidades de caráter desejáveis que contribuem para uma conduta ética, e a moral define as normas específicas que regem o comportamento dentro de uma determinada comunidade ou grupo social.

Na Grécia Antiga, Sócrates desafiava seus contemporâneos a refletir sobre o que significava ser virtuoso. Seu método dialético, explorado em diálogos como os escritos por Platão, revela a virtude como um conhecimento essencial para a vida justa. Sócrates, mesmo ao enfrentar sua condenação injusta, manteve-se firme em seus princípios, exemplificando a integridade e a justiça em seu sacrifício final.

Aristóteles, discípulo de Platão, aprofundou a ideia de virtude em sua obra Ética a Nicômaco. Ele propôs que a virtude é uma disposição adquirida para fazer o bem e que se aperfeiçoa pelo hábito. A coragem, por exemplo, é o meio-termo entre a covardia e a temeridade, uma prática constante que resulta na excelência moral. Aristóteles introduz o conceito de mesotes, ou o caminho do meio, como o equilíbrio essencial para todas as virtudes, promovendo uma vida harmoniosa.

Os pensamentos de Sócrates e Aristóteles influenciaram profundamente o pensamento ocidental sobre a virtude. Sócrates via a virtude como uma forma de conhecimento, algo que pode ser ensinado e aprendido, como registrado por Roger Shattuck em Conhecimento Proibido. Voltaire, mais de dois mil anos depois, reiterou a inseparabilidade da virtude, do estudo e da alegria em suas cartas filosóficas. Vauvenargues observou que até os maus, por interesse, praticam a virtude, revelando sua utilidade óbvia e universal.

O filósofo contemporâneo André Comte-Sponville, em seu Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, oferece uma lista abrangente de virtudes que abrangem desde a polidez e fidelidade até a humildade e o amor. Ele argumenta que essas virtudes não são apenas ideias idealizadas, mas práticas que enriquecem nossas vidas e nos ajudam a navegar por nossas complexas interações sociais.

Consideremos o exemplo de um cirurgião cardiovascular em uma operação de alto risco. Este médico exemplifica a prudência, ao ponderar cuidadosamente todas as opções e tomar decisões que podem salvar vidas. A prudência aqui não é um conceito abstrato, mas uma ação prática que demonstra como essa virtude guia decisões em momentos críticos.

Da mesma forma, um atleta de alta performance que mantém um regime rigoroso e equilibrado exemplifica a temperança. Ao moderar seus desejos por uma alimentação e treino excessivos, ele demonstra a importância de manter o equilíbrio para alcançar o sucesso a longo prazo, mostrando como a temperança é fundamental para o bem-estar e desempenho sustentáveis.

O desenvolvimento das virtudes, embora essencial, não é isento de críticas. Emmanuel Kant, por exemplo, acreditava que as virtudes se aprendem no colo da mãe, enfatizando a formação moral desde a infância. Ele sugeria que o desenvolvimento das virtudes é mais efetivo quando iniciado precocemente, destacando o papel crucial da educação moral inicial.

A história de uma mãe que, com paciência e amor, educa seus filhos em meio a adversidades, ilustra como as virtudes podem ser cultivadas desde cedo. Sua dedicação à formação do caráter de seus filhos exemplifica a visão de Kant sobre a importância das virtudes aprendidas na infância, demonstrando como essas qualidades podem ser transmitidas através de exemplos de vida reais.

As virtudes são mais do que meros conceitos filosóficos; são qualidades vividas e exemplificadas por pessoas reais em suas ações diárias. Elas guiam nossas ações e decisões, nos ajudam a enfrentar desafios e promovem uma sociedade mais justa e equilibrada. Ao cultivar a prudência, coragem, temperança e justiça, tornamo-nos protagonistas na construção de um futuro melhor para todos.

Para saber mais

  1. Aristóteles. Ética a Nicômaco. Brasília: UnB, 1992.
  2. Clotet, Joaquim. A Ética e o Desenvolvimento Humano. São Paulo: Editora Santuário, 2001.
  3. Shattuck, Roger. Conhecimento Proibido. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
  4. Voltaire. Cartas Filosóficas. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
  5. Vauvenargues. Reflexões e Máximas. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
  6. Comte-Sponville, André. Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
  7. Kant, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
  8. MacIntyre, Alasdair. Depois da Virtude. São Paulo: Edições Loyola, 2001.
  9. Peterson, Christopher, e Seligman, Martin. Character Strengths and Virtues: A Handbook and Classification. Oxford: Oxford University Press, 2004.
  10. Lewis, C.S. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

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